As duas vidas de mulheres artistas: a poeta Cora Coralina e a violeira Helena Meirelles

Claudio Guadalupe
Às vezes é difícil a mulher ter seus projetos individuais, numa sociedade machista, como a nossa! Dura anos, mas ao final, desabrocha a sua presença no mundo. Há casos que comprovam estas dificuldades vividas pelas mulheres, em seus projetos de vida. Recentemente, a moradora em grutas, a música Zé da Lorca, só aos seus noventa anos, foi reconhecida como uma grande música, tocadora de pífaros!
Mas há outros casos, como o da escritora Cora Coralina, que lançou o seu primeiro livro, aos 76 anos! A poesia a libertou! E o que dizer da violeira Helena Meirelles, que rompeu todos os padrões sociais, para fazer a arte de pontear a viola caipira. Hoje, vamos conhecer mais sobre a produção poética de Cora Coralina e a musicabilidade da violeira Helena Meirelles.
Cora Coralina, de nome real Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, nascida na cidade de Goiás (20/08/1889), teve uma meninice com muitas dificuldades, chegando a passar fome. Além disso, era muito maltratada pela mãe. Desenvolveu uma escrita muito elaborada, quando era “quase analfabeta”, como ela mesma afirmava. Mas o acesso a um acervo variado de livros e jornais da sua avó e da mãe possibilitou a sua formação literária, desde a juventude, quando começou a escrever em jornais da região!
Para se casar, teve que fugir com seu namorado e viveu com ele, 45 anos, em cidades de São Paulo, onde tiveram seis filhos. Depois, voltou para Goiás, viúva, deixando-os em SP e, livre, iniciou sua carreira literária, de grande sucesso, até os 95 anos, com uma poética simples, às vezes filosófica, ligada à realidade rural de Goiás. Fez os versos biográficos, longos, descritivos em seus nove livros, com poesia, prosa e literatura infantil, na perspectiva de uma escrita lírica-épica, bem modernista. Vamos conhecer abaixo fragmentos dos poemas de Cora Coralina?
MULHER DA VIDA (Fragmento)
Mulher da Vida,
Minha irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades
e carrega a carga pesada
dos mais torpes sinônimos,
apelidos e ápodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à toa.
Mulher da vida,
Minha irmã.
TODAS AS VIDAS (Fragmento)
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé
do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…
Vive dentro de mim
a lavadeira
do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde
de São-Caetano...
POEMA DO MILHO (Fragmento)
Milho...
Punhado plantado nos quintais.
Talhões fechados pelas roças.
Entremeado nas lavouras,
Baliza marcante nas divisas.
Milho verde. Milho seco.
Bem granado, cor de ouro.
Alvo. Às vezes varia,
- espiga roxa, vermelha, salpintada.
Já o caso da Helena Meirelles confirma também as dificuldades das mulheres! Nascida em Bataguassu (13/08/1924), Helena Pereira Meirelles cresceu rodeada de peões, comitivas e violeiros.
Fascinada pelas violas caipiras, a família não lhe permitia que aprendesse a tocar, o que acabou fazendo por conta própria, às escondidas. Aos poucos, ficou conhecida entre os boiadeiros da região. Após dois casamentos, resolveu sair pela vida afora, tocando viola em bares e em farras.
Depois, deixou os filhos dos dois casamentos
com pais adotivos e ganhou a estrada até
encontrar o terceiro marido, com quem viveu
por mais de 35 anos. Ao sumir por mais de
trinta anos, foi redescoberta pela mídia, a
partir de uma entrevista, na revista norte-americana Guitar Player. Apresentou então, em um teatro, pela primeira vez, aos 67 anos, gravando cinco discos em seguida, com suas violas. Sua música é reconhecida no estado de Mato Grosso do Sul como a música genuinamente pantaneira, que influenciou tantos tocadores de viola pelo país, como Almir Sater e outros pantaneiros.
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