MÊS DE AGOSTO – DOS POETAS, DOS LOUCOS E AS QUESTÕES SOCIAIS NA POESIA

CLÁUDIO GUADALUPE
O mês de agosto tem significados profundos para a poesia nacional. É o mês da vida e da morte dos autores Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e Paulo Leminski. E é o mês, segundo os saberes tradicionais, da loucura e das ventanias. Nessa crônica, quero demonstrar que a poesia é muito mais do que só um discurso amoroso, etéreo ou metafísico. Os três poetas citados acima, dizem muito da poética contemporânea e as necessárias posições humanistas. Senão vejamos!
Carlos Drummond de Andrade, nosso maior poeta, já no seu primeiro livro, ALGUMA POESIA (1930), mostrava a força de versos questionadores, a começar pelo enigmático poema No meio do caminho tinha uma pedra ... Ora, leiamos outros versos do livro!
ANEDOTA BÚLGARA
Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que
também se caçam borboletas e
andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade.
SETIMENTAL
Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos comtemplam esse romântico trabalho.
Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!
- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!
Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências um cartaz amarelo:
“Neste país é proibido sonhar. ”
Murilo Mendes, reconhecido nacionalmente como um poeta-filósofo cristão, também em seu livro de lançamento, POEMAS (1925/1929), praticou uma poesia universal, filosófica, crítica, com versos profundamente sociais.
A LUTA
(Cantos virginais do mundo,
planos da inocência,
frêmito de amor puro.)
A vida asfixiou meus cantos de inocência,
sou da noite, da assombração
e dos ritmos desesperados.
Tardes calmas, vida lânguida nas varandas cariocas
olhando o mar, nunca mais.
Nunca mais vibrarão cantos de noivas nos meus terraços,
nem vestidos suspensos lembrarão a forma da coisa amada,
nem eu dançarei.
Nem olharei pras rosas nem me banharei na luz das madrugadas.
Sou a luta entre um homem acabado
e um outro homem que está andando no ar.
Na Poesia Marginal, o poeta Leminski, também apontou com muita ironia os descalabros que vivemos em nosso país. Vejamos nestes poemas!
BEM NO FUNDO
No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.
Publicado no livro Distraídos venceremos (1987)
“arte que te abriga arte que te habita
arte que te falta arte que te imita
arte que te modela arte que te medita
arte que te mora arte que te mura
arte que te todo arte que te parte
arte que te torto ARTE QUE TE TURA”
Do livro O Ex-estranho, 1996)
Recentemente questionaram sobre os meus poemas, que só têm questões sociais. Espero que esta crônica demonstre o olhar social dos grandes poetas. E se me permitem, quero apresentar um poema meu com a questão levantada.
DESAFIADO
Me desafiaram um dia na rua sombria
Poeta, escreva também sobre o amor
a paz idílica, a flor perfumada
a força de Deus em nossa vida!
Aí veio a mim, de imediato, os versos
“eu não posso me enganar
misturo tudo que vi...
a tristeza com a alegria...”
E a mim coube responder na rua gelada
Sou poeta, teci o amor na senda
humana, já armei a paz sob
as múltiplas bombas, já colhi
atónito a flor contaminada
e levo a Deus minhas duas dúvidas:
- Esperar num anseio amoroso pelo santo milagre?
- Ou mudar pelas mãos calosas a dura realidade?
Leia também
Mais recentes
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…


