Poesia x Eleição - Há versos para um projeto de nação?

Votar carrega sempre um viés emocional. Após o período de 21 anos de ditadura civil-militar, o povo recuperou este direito inalienável de votar e ser votado. E as eleições presidenciais, desde 1989, sempre foram momentos para se discutir, sonhar e lutar por novos projetos para o país.
E a poesia não fica imune aos debates políticos. A intenção de hoje é apresentar poemas críticos e sociais, que refletem a evolução política do país, de poetas que derem vozes aos interesses populares e democráticos, como Pedro Lyra, Félix de Athayde, Affonso Romano Sant`Anna, Sérgio Vaz, Miro e Thiago de Mello!
Comecemos por um poeta pouco conhecido, Pedro Lyra. Jornalista, ensaísta, crítico, cronista, estudioso da poética e professor universitário, de Fortaleza (1945 - 2017), criador do movimento POEMA-POSTAL, foi reconhecido pela sua poesia crítica e politizada. Vejamos o poema do livro “Protesto: Estados do Ser” (2014).
O POLÍTICO PADRÃO
Ele
não é direitista
nem centrista
nem esquerdista
Não é conservador
nem liberal
nem revolucionário
Não tem substância
a sua ideologia
apenas forma:
- a forma do governo da hora
Ele é
poderista!
Já o poeta Félix de Athayde (Olinda, 1932 - 1995), foi um dos grandes poetas do século XX. Participou dos movimentos da poesia concretista, da poesia social do Violão de Rua (com o CPC, da UNE) e colaborou com as Revistas Civilização Brasileira e Tempo Brasileiro, além da imprensa alternativa, nos jornais Opinião e O Pasquim. Vejamos uma poesia social do livro Violão de Rua, que aponta a questão da soberania do país!
AH! AMÉRICA (Fragmento)
América do norte
América rapina
América da morte
América latina
América do norte
América que come
América de carga
América que paga
...
Outro nome forte na poesia social foi Affonso Romano de Sant`Anna, mineiro, um grande intelectual (1937/2025) que além de poeta, jornalista, professor e ensaísta, teve uma atuação vitoriosa frente à Biblioteca Nacional, incentivando a criação de bibliotecas pelo país afora e criando a revista
Poesia Sempre! Vamos aos textos seus muito conhecidos e divulgados.
A MENTE QUE MENTE
Há um candidato* a presidente que mente,
Mente de corpo e alma, completa/mente.
E mente de maneira tão pungente
Que a gente acha que ele mente sincera/mente.
Mais que mente, sobretudo, impune/mente…
Indecente/mente.
E mente tão nacional/mente,
Que acha que mentindo história afora
Vai nos enganar eterna/mente.
Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.
*Candidato, palavra acrescentada;
Da poesia de rua contemporânea temos dois autores de versos afiados: Sérgio Vaz e Miró. Do primeiro, Sérgio Vaz, poeta mineiro (Ladainha, 1964) que vive em São Paulo e é organizador da Cooperativa Cultural da Periferia – COOPERIFA, temos dois poemetos do livro FLORES DA BATALHA.
Sou candidato por um dia Votar
à presidência da república também é fazer
Pelo PAPO, Partido da Poesia justiça
Não prometo nada com as próprias
além da utopia. mãos.
Já do pernambucano Miró da Muribeca, poeta das ruas de Recife, temos dois recados fortes para os políticos. Vejam só!
FATO
troco meu revólver do lado esquerdo
por comida do meu peito
lazer mora algo
educação e moradia que o direito (a)
disse o cara da periferia. desconhece
E finalmente, teremos os versos do poeta amazonense Thiago de Mello, no seu livro CANÇÃO DO AMOR ARMADO, um libelo pelo direito ao voto!
CANÇÃO DO AMOR ARMADO (fragmento)
Foi hoje e foi aqui, no chão da pátria,
Onde o voto, secreto como o beijo
No começo do amor, e universal
Como o pássaro voando – sempre o voto
Era um direito sagrado e era um dever sagrado.
De repente deixou de ser sagrado.
de repente deixou de ser direito,
de repente deixou de ser, o voto!
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