Recordar é viver: a literatura divinopolitana revisitada no EDUCAFRO

Claudio Guadalupe
Estive nesta semana no projeto EDUCAFRO, para conversarmos com as alunas do Pré-vestibular popular, sobre a Literatura em Divinópolis, numa homenagem aos escritores, antigos e contemporâneos.
Foi um momento mágico, quando ali recuperamos a história do Convento Franciscano (onde funciona o projeto), o seu papel de aglutinador das manifestações culturais em Divinópolis. Depois, num debate aberto, apresentamos os autores importantes de nossa literatura e de nossa vida cultural: Adélia Prado, Sebastião Benfica Milagre, Antônio Mercemiro, Júlio Régis Fuscaldi, Oswaldo André de Melo, Antônio D. Franco e os escritores mais jovens, Wellington Messias de Oliveira, Ana Cláudia Gonçalves, Lucas Galvão e outros
Encontro do EDUCAFRO
Entre eles, relembramos a jovem poesia de Wellington Messias de Oliveira, que tem uma trajetória literária, com várias premiações, em concursos da ADL, da Academia Municipalista de Letras de MG, no prêmio Nacional de Poesia da cidade de Divinópolis (1991) e em outras instituições. Vamos conhecer a sua poética, num poema mais recente, de sua verve.
FILOSOFIA
rio dos meus olhos
clarão de minha boca
espera de meus lábios
túnica de minhas lágrimas
solidão de minhas faces
que palavras tece teu segredo?
que sonho revela tua sina?
que poeta te fez morte e musa?
que habitante te fez ruína?
que caminhante te fez lábia e lágrima?
que instante te fez menina?
decifrarei o enigma de teu ser
na constatação de nossos versos
em luta
contemplarei o pântano
onde apenas a tua palavra
escuta
No seu livro “Pão com Lágrima” (1988), o poeta possui uma voz inquiridora e denunciante, frente às misérias de nosso país.
PROCISSÃO
SENTIDOS FIXOS
NOS RUÍDOS (RUÍNAS?)
CALVOS
OS VELHOS PASSAM
CABISBAIXAS
AS MULHERES PASSAM
EM MIM
OS SÉCULOS PASSAM
Outro autor que revisitamos foi o dramaturgo Domingos D. Franco, com o seu livro de poemas – PÁSSARO NA JANELA – onde pudemos apreciar sua poética lírica, às vezes amorosa, às vezes amarga, outras vezes atravessada por uma visão crítica de nossa sociedade. Vamos ler três poemas do livro.
XII
Estou cheio de você.
Cada centímetro de pele,
Cada gosta de sangue,
Cada fibra elástica e nervosa,
Cada batida febril
Deste coração incompetente
está cheio de você.
Inundado de você.
VERÃO
Quando o sol de dezembro molhar teu rosto
[de suor e sal
A línguas, os lábios, de calor e sangue,
E palpitarem nas veias, aceleradas, a Vida e o
[Sexo
Será verão
Não tive rios nem quintais na minha infância.
A manga roubada não existiu.
Da fantasia levantei meus muros,
Na solidão inventei a vida.
Por fim, julgo que foi uma noite muito especial, com muita poesia, informações sobre os nossos autores e um encontro com o Coral Afro Undarirê. O coral, que ensaia no Convento, apresentou então para as educandas, várias canções, com mensagens em defesa da etnia negra, contra o preconceito racial e também um diálogo sobre a história do Coral e do movimento negro na cidade, desde a Casa Congai até o recente movimento Mundi.
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