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Cláudio Guadalupe

QUEM TEM NOÇÃO DA BATALHA...DÁ MAIS CALOR À LUTA: O POETA ZÉ HELENO! CLÁUDIO GUADALUPE

Por Bruno
QUEM TEM NOÇÃO DA BATALHA...DÁ MAIS CALOR À LUTA: O POETA ZÉ HELENO! CLÁUDIO GUADALUPE

CLÁUDIO GUADALUPE

O compositor Carlinhos Vergueiro cantava em 1977 exatamente assim: “Quem tem noção da batalha ... Dá valor àquele que tentou / Dá mais calor à luta”. Conhecendo o professor José Heleno, estes versos fazem todo sentido. Militante social, desde a época dos Comunidades Eclesiais de Base (CEB), da Igreja Católica progressista, passando pelos partidos populares, entidades sindicais, tornou-se educador crítico do Ensino Básico e Superior. Hoje, vamos conhecer a sua poética e seu envolvimento com a literatura.

P - José Heleno, 

como se deu a sua 

aproximação ao 

gênero poético e 

conte-nos como foi 

a escrita do novo livro 

de poemas?

R - Eu diria que a minha aproximação com o gênero poético vem da infância e adolescência. Eu sou filho de pai e mãe não escolarizados e cresci numa família em que não tínhamos acesso aos livros, uma vez que meus pais não são leitores e não tinham condições financeiras para comprar livros.

Mas, nos anos finais do ensino fundamental, à época, quinta a oitava série, tive uma professora de português que incentivava a leitura – de romances, poemas... – e que desenvolvia diversas atividades com a poesia em sala de aula. Estas experiências me marcaram muito e, acredito, me ajudaram a desenvolver o gosto pela leitura e despertaram, em mim, a paixão pela literatura.

O livro “Entre Páginas e Telas...” que publico agora traz uma seleção de poemas escritos ao longo da vida... Alguns, há mais de 30 anos, outros, escritos recentemente. 

João Cabral de Melo Neto, um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, na minha opinião, dizia que “escrever poesia é como catar feijão”, ou seja, não há que esperar uma inspiração. Há que se dedicar ao trabalho, à burilação das palavras, “tijolo por tijolo”, construindo “desenho mágico”. Gosto desta definição acerca do fazer poético, inclusive porque ela nos diz que todas as pessoas podem escrever poemas, desde que se dediquem a trabalhar as palavras!

SAUDADE

À Dona Dica

A casa amanheceu tomada 

pelo perfume do patchouli.

Não estava nos lençóis, nem nas roupas.

Revirei as gavetas

e até mesmo o quintal a procura da planta.

Nada...

O cheiro estava na alma.

Fiz almoço: arroz branco,

molho de feijão com ovos e cebolinha,

abobrinha batida com pimenta cumarim.

A presença dela, agora,

tomava meu corpo inteiro.

P - Para você, quais os movimentos contemporâneos e os desafios, da produção poética brasileira e em Divinópolis?

R - Vivemos um momento muito rico em todo o Brasil em relação à produção poética. Entre as tendências e movimentos contemporâneos, é preciso citar a poesia indígena e afro-brasileira, inclusive porque, até pouco tempo atrás, autores e autoras negros e indígenas não conseguiam publicar seus textos (o que não quer dizer que não produziam poesia).

Outro movimento importante diz respeito à literatura marginal e periférica, com destaque para o movimento do slam e das batalhas de rima, que trazem a poesia falada.

O advento das redes sociais trouxe a poesia digital, uma tendência no momento atual. 

Por último, eu destacaria o hibridismo entre prosa, poesia e crônica – uma marca de muitos autores e autoras contemporâneos. Como exemplo desse hibridismo, eu citaria o livro de Chico Chico, publicado recentemente: “Pequenos Sigilos”.

Em Divinópolis, temos presenciado o crescimento da poesia de rua, com o slam e as batalhas de rima, e também dos grupos e clubes de leitura que, mais cedo ou mais tarde, estarão também produzindo textos. 

ERA A SENHA...

“Joana vai casar! ”

Joana casou-se muitas vezes

Nos anos trinta, nos anos quarenta...

Muitas vezes, Joana também mudou de nome...

Muitos...

Tantos quanto necessários...

Primeira metade do século XX, Divinópolis

Greve dos ferroviários, todo cuidado era pouco.

Os trilhos também tinham ouvidos...

Para marcar uma manifestação,

um convite para um casamento.

E o anúncio do dia, local e horário da festa.

A mensagem codificada corria entre os trabalhadores.

E o casamento da Joana se tornava uma festa –

uma afirmação de coragem e valentia

de quem construía cotidianamente a ferrovia.

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