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Cláudio Guadalupe

Noite de São João para além do muro de meu quintal

Por Bruno
Noite de São João para além do muro de meu quintal

Claudio Guadalupe

O nosso poeta Manuel Bandeira é aquele que mais canta a memória coletiva, quanto às festas populares. Inicio hoje, a coluna, com um poema do Manuel Bandeira que alude às nossas vivências anteriores, nas pequenas cidades e nas festas juninas, que ainda esquentam nossos corações.

PROFUNDAMENTE

Quando ontem adormeci

Na noite de São João

Havia alegria e rumor

Estrondos de bombas luzes de Bengala

Vozes, cantigas e risos

Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei

Não ouvi mais vozes nem risos

Apenas balões

Passavam, errantes

Silenciosamente

Apenas de vez em quando

O ruído de um bonde

Cortava o silêncio

Como um túnel.

Onde estavam os que há pouco

Dançavam

Cantavam

E riam

Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo

Estavam todos deitados

Dormindo

Profundamente.

Há outros autores nacionais que falaram do tema das festas juninas. É o caso do poema QUADRILHA, de Carlos Drummond de Andrade, quando nosso poeta maior, que sempre escreveu sobre sua infância na cidade mineira de Itabira, perpetuou seus personagens populares. Como numa quadrilha junina, o autor nos coloca ao ritmo da dança, nos vais e vens da vida dos seus personagens.

QUADRILHA

João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili,

que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre, 

Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes 

que não tinha entrado na história.

Já na poesia popular, em forma do cordel, temos poetas que declamaram a Festa de São João: Bráulio Bessa e Patativa de Assaré. Vejamos primeiro o poeta Bráulio Bessa.  

FESTA DE SÃO JOÃO (Fragmento).

Num país tão rico e belo

Tão grande, tão cultural

Tem festa o ano inteiro

Mas junho é especial                         

É o carnaval do sertão

Nossa festa de São João

Cheia de gente animada

Vem pra cá você também

Que eu vou dizer o que tem

Nessa festa arretada

Tem pamonha, tem canjica

Milho cozido e assado

Tem beiju, tem tapioca

Com cafezinho coado

Bolo de milho e fubá

E pro cabra se esquentar

Tem o famoso quentão

E a boca não se aquieta

Duvido fazer dieta

Nas festas de São João

Tem o calor da fogueira

Que esquenta o coração

Mas, o nosso maior cordelista, Patativa de Assaré, também cantou a Festa Junina em seus versos bem nordestinos

A FOGUÊRA DE SÃO JOÃO

...

Meu querido e nobre santo

Que a gente qué e ama tanto

Sua foguêra é o encanto

Da gente do meu sertão.

Não pode ser carculada

Nessas noites festejadas

Na foguêra de São João

...

É tão grande e tão imensa

A minha fé e minha crença,

Que se Deus me dê licença,

Quando eu morrê, vou levá

Grosso fecho de madêra

De angico e da catinguêra

Pra fazê uma foguêra

Lá no céu, quando eu chegá.

Mas a Festa Junina é uma festa universal, que ocorre em vários países. O poeta maior de língua portuguesa, trouxe também em versos a festa. Falamos de Fernando Pessoa, com seu heterônimo Alberto Caieiro.

NOITE DE S. JOÃO PARA ALÉM DO MURO DE MEU QUINTAL

Noite de S. João para além do muro do meu quintal.

Do lado de cá, eu sem noite de S. João.

Porque há S. João onde o festejam.

Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,

Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.

E um grito casual de quem não sabe que eu existo.

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