Divinópolis: verde que te quero verde numa cidade humana

Divinópolis completa os seus 114 anos com uma triste constatação. Perdemos a cobertura vegetal ao longo dos anos, longe dos tempos amenos de uma cidade arborizada! Garcia Lorca tem um poema que retomo para a abertura desta reflexão necessária para com meus concidadãos. Escutemos Lorca, o poeta espanhol.
POEMA SONÂMBULO (Fragmento)
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana,
as coisas estão mirando-a
e ela não pode mirá-las.
Poeticamente, quero conduzir esta crônica para o problema: Divinópolis vem perdendo a sua graça pelo pensamento arcaico e capitalista de se cortar árvores para mostrar as fachadas de lojas e prédios!

Não sou um saudosista! Trago aqui uma questão que inquieta a mim e a muitos outros. Pode o divinopolitano romper a harmonia da natureza sem trazer sérias consequências na vida urbana? Acreditamos que não. E, poeticamente, mostramos a questão neste poema de Manoel de Barros, do livro Biografia do Orvalho.
As árvores velhas quase todas foram preparadas para o exílio das cigarras.
Salustiano, um índio guató, me ensinou isso.
E me ensinou mais: Que as cigarras do exílio são os únicos seres que sabem de cor quando a noite está coberta de abandono.
Acho que a gente deveria dar mais espaço para esse tipo de saber.
O saber que tem força de fontes.
O poeta reafirma que todas as coisas estão interligadas. Árvores, cigarras e os saberes antigos dos homens. E hoje sabemos dos efeitos da destruição no planeta: mudanças climáticas, chuvas torrenciais, furacões, aquecimento do meio ambiente e a extinção de vários espécimes.

Não sejamos como os negacionistas, que acreditam que nada está acontecendo na terra. Sabemos que, por outro lado, outros países e mesmo cidades brasileiras apostam em outras saídas. No Japão, por exemplo, as árvores mortas são sempre deixadas em seus ambientes naturais. Na China, plantam-se milhares de árvores, mudando o clima das regiões antes desérticas. Em cidades da Europa, EUA e do nosso próprio país (Curitiba, Florianópolis) vêm se desenvolvendo novas políticas ambientais sustentáveis, colocando uma vegetação nas coberturas dos prédios, criando-se parques em lugares públicos, o replantio de árvores pelas ruas das cidades e a necessária educação ambiental da população.

A foto acima (corte de árvores da Praça da Catedral) mostra que Divinópolis vai na contramão das políticas ambientais das cidades sustentáveis. Para finalizar esta reflexão do problema ecológico que vivemos em nossa cidade, deixo aqui um poema do meu livro “Poesia Hereditária” (2021).
CRIME NAS RUAS (Fragmento)
Falta-lhe a copa, árvore
Óbito esquadro
Tronco imperfeito
Sobra-lhe o feio, árvore
Áspero formato
Retorcido devaneio.
...
Sem copa, sem folhas
Sem pouso, sem flores
Árvore mecânica
Crime dos prefeitos
E de todos nós!
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