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Cláudio Guadalupe

A AMPLIDÃO DA POESIA EM CADA DESCOBERTA LITERÁRIA

Por Bruno
A AMPLIDÃO DA POESIA EM CADA DESCOBERTA LITERÁRIA

Na poesia é assim. Cada leitura de novos poetas, amplia-se o espanto e a nossa percepção de que na literatura há uma vastidão de caminhos, de valores e uma certeza que nos persegue, ao ler os grandes nomes da poesia: pouco escrevemos e muito temos que aprender com eles. 

Hoje, na nossa coluna, após uma semana intensa de poesia, na Festa do Livro (21 a 24 de maio), vamos nos maravilharmos com os poemas de dois autores: Severino Antônio (Brasil) e Miguel Torga (Portugal).

Poeta paulista, Severino Antônio tem o nome do personagem do poema épico de João Cabral de Melo Neto. Mas o escritor - educador, apesar do nome, tem uma poética muito lírica - filosófica, reflexiva, e ao mesmo tempo, cotidiana e cósmica. 

O poeta, educador e filósofo da educação, busca no livro “O visível e o invisível: alguma poesia”, escrever com despojamento, simplicidade, com sonoridade das palavras. Mais do que isto: em tempos de crise civilizatória, onde os homens fazem guerras, se tornam cada vez mais autoritários, desumanos e alienados, os poemas do autor nos apresentam o visível e o invisível da nossa natureza dual, em religação com forças espirituais. E para isso, a poesia se torna necessária, como diz no poema a seguir.

A NECESSIDADE DA POESIA

I

o amor está escasso

nestes dias

o cerco das misérias quase desnatura

as formas novas.

muitas mãos

ainda não se reconhecem

II

a cota de sonhos em nossa boca

anda quieta

entre os dentes e o céu

poucos e move a língua

o ar se oculta

abaixo da garganta

mas os nascimentos precisam das palavras

os que nascem, precisam de poemas.

Noutro poema, Severino Antônio escreve com júbilo, uma homenagem ao poeta russo Maiakóvski.

PARA MAIAKÓVSKI, 55 ANOS DEPOIS 

viemos do júbilo

e para o júbilo

mas a terra ainda está imatura

muitas auroras

ainda não brilharam

a paixão ainda permanece

mudar a vida, transformar o mundo

O outro poeta que aguçou a minha estima pelos grandes autores é o português Miguel Torga (1907-1995). A obra de Torga traduz sua rebeldia contra as injustiças e seu inconformismo diante dos abusos de poder.

Reflete seu contato com a gente pobre, os cinco anos que passou no Brasil (dos treze aos dezoito anos de idade), e uma participação na Revolução dos Cravos (1974) e no combate ao franquismo na Espanha, o que lhe valeu a prisão política.

Autor de mais de 50 livros,            

Ganhou o prêmio Camões,

em 1989, o prêmio mais

importante da literatura 

portuguesa. 

Dele li poemas com uma sagaci-

dade social, apesar do amargor        

de seus textos, encontrei o seu

compromisso com o humanismo. Vamos ler abaixo dois poemas do livro “Cântico do Homem”.

LUTA

Um contra o mundo, é pouco.

Mesmo que seja louco,

É muito pouco ainda.

Mas que pode fazer o homem que endoidece

E se esquece

De medir o poder do seu tamanho?

Ah, se houvesse um fotógrafo no céu

Que filmasse

Uma aventura assim, ridícula e perfeita!

D. Quixote sozinho

A combater as velas do moinho

Que mói, ronceiro, a última colheita.

HORA DO ABANDONO

Não dizer nada, chorar.

Chorar como uma criança

Que já não tem confiança

No próprio Deus da doutrina.

Não dizer nada, chorar

Até o pranto coalhar

Na retina

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