A AMPLIDÃO DA POESIA EM CADA DESCOBERTA LITERÁRIA

Na poesia é assim. Cada leitura de novos poetas, amplia-se o espanto e a nossa percepção de que na literatura há uma vastidão de caminhos, de valores e uma certeza que nos persegue, ao ler os grandes nomes da poesia: pouco escrevemos e muito temos que aprender com eles.
Hoje, na nossa coluna, após uma semana intensa de poesia, na Festa do Livro (21 a 24 de maio), vamos nos maravilharmos com os poemas de dois autores: Severino Antônio (Brasil) e Miguel Torga (Portugal).
Poeta paulista, Severino Antônio tem o nome do personagem do poema épico de João Cabral de Melo Neto. Mas o escritor - educador, apesar do nome, tem uma poética muito lírica - filosófica, reflexiva, e ao mesmo tempo, cotidiana e cósmica.
O poeta, educador e filósofo da educação, busca no livro “O visível e o invisível: alguma poesia”, escrever com despojamento, simplicidade, com sonoridade das palavras. Mais do que isto: em tempos de crise civilizatória, onde os homens fazem guerras, se tornam cada vez mais autoritários, desumanos e alienados, os poemas do autor nos apresentam o visível e o invisível da nossa natureza dual, em religação com forças espirituais. E para isso, a poesia se torna necessária, como diz no poema a seguir.
A NECESSIDADE DA POESIA
I
o amor está escasso
nestes dias
o cerco das misérias quase desnatura
as formas novas.
muitas mãos
ainda não se reconhecem
II
a cota de sonhos em nossa boca
anda quieta
entre os dentes e o céu
poucos e move a língua
o ar se oculta
abaixo da garganta
mas os nascimentos precisam das palavras
os que nascem, precisam de poemas.
Noutro poema, Severino Antônio escreve com júbilo, uma homenagem ao poeta russo Maiakóvski.
PARA MAIAKÓVSKI, 55 ANOS DEPOIS
viemos do júbilo
e para o júbilo
mas a terra ainda está imatura
muitas auroras
ainda não brilharam
a paixão ainda permanece
mudar a vida, transformar o mundo
O outro poeta que aguçou a minha estima pelos grandes autores é o português Miguel Torga (1907-1995). A obra de Torga traduz sua rebeldia contra as injustiças e seu inconformismo diante dos abusos de poder.
Reflete seu contato com a gente pobre, os cinco anos que passou no Brasil (dos treze aos dezoito anos de idade), e uma participação na Revolução dos Cravos (1974) e no combate ao franquismo na Espanha, o que lhe valeu a prisão política.
Autor de mais de 50 livros,
Ganhou o prêmio Camões,
em 1989, o prêmio mais
importante da literatura
portuguesa.
Dele li poemas com uma sagaci-
dade social, apesar do amargor
de seus textos, encontrei o seu
compromisso com o humanismo. Vamos ler abaixo dois poemas do livro “Cântico do Homem”.
LUTA
Um contra o mundo, é pouco.
Mesmo que seja louco,
É muito pouco ainda.
Mas que pode fazer o homem que endoidece
E se esquece
De medir o poder do seu tamanho?
Ah, se houvesse um fotógrafo no céu
Que filmasse
Uma aventura assim, ridícula e perfeita!
D. Quixote sozinho
A combater as velas do moinho
Que mói, ronceiro, a última colheita.
HORA DO ABANDONO
Não dizer nada, chorar.
Chorar como uma criança
Que já não tem confiança
No próprio Deus da doutrina.
Não dizer nada, chorar
Até o pranto coalhar
Na retina
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