Alessandra Amaral - poeta da linguagem lacaniana: somos um poema! (parte II)

Cláudio Guadalupe
Vamos continuar nossa entrevista da semana passada, perguntando Alessandra Amaral: nos diga, como foi sua experiência em lidar com seus poemas?
R - A arte nada mais é do que a expressão profunda da condição humana em lidar, em compreender e poder caminhar nesta experiência de humanizar-se. Tem gente que acha que a poesia é escrever palavras belas. Não, a poesia é para falar de coisas impactantes, profundas, desde as mais cruéis até à beleza quotidiana da simplicidade. Por isto, cada poeta, cada poema, cada letra escrita traz a riqueza profunda da condição humana, e casando com a atualidade, traz coisas passadas, porque somos feitos da linguagem dos outros e da nossa! Para a gente existir, precisamos dos outros. Vários poetas dizem que a gente tem vários outros por dentro.
Freud, no texto O POETA E O FANTASIAR, dizia que o poeta chega primeiro onde o psicanalista não consegue chegar. E ele volta, retorna. Ele chega nas profundezas deste movimento humano, para em palavras, em arte, em dança, expressar esta especificidade nossa de existência. Nós precisamos um dos outros, para sermos alguém, precisamos dos outros, mas temos a particularidade nossa. Somos únicos, mas não sem os outros. Então somos muitas escritas juntas e tem a particularidade, que cada um traz, a sua marca ao escrever.
P - Alessandra, dizendo dos outros, quais foram e são as suas leituras no campo da poesia?
R - Leio muito Adélia Prado, Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Virgínia Wolf, Simone Beauvoir, mas queria lembrar de todos que já li da nossa literatura regional. Lembro agora da Clara Valverde, a Samira, o Lucas Galvão, a Denise Arantes...não estou dando contar de lembrar neste momento de todos que eu já li e vou ser injusta!
Mas reforço aqui o papel das mulheres que estão conquistado espaços, contra o silenciamento dos outros, de nós, ou a nossa própria inibição. Então estamos colocando em palavras, aquilo que é feminino, para além das mulheres. Está em todos nós. Estamos falando da potencialidade da fala feminina, porque o homem traz uma fala feminina, de uma mãe, irmão, mulher, de uma amiga.
P - Mas voltemos ao seu livro: como foi a criação dele para você?
R - Este livro demorou uns três anos, porque ele veio de experiências minhas e de outras pessoas. Eu falo que foi um livro tecido através da experiência da condição humana. Tem várias criações e quando o leio, tenho raiva, pois poderia trabalhar mais, e outras vezes, me surpreendo, meu Deus, fui eu mesma que escrevi esta pérola! O livro mexeu muito comigo, e eu ressalto, que foi escrito no mergulho do meu divã, na análise pessoal. É como no poema abaixo.
RASGUE O VERBO E SOLTE O VERSO
Não me basta a calma
Que me rasga a alma
Das securas seculares
Que não me curam
Dos inquietantes eu’s
Ainda que
Rasgue no verbo o tímido
E solte no verso o íntimo
De querer mais
Que estar somente
Como um eu (página 99)
Eu convido a vocês lerem. Eu digo que ele foi escrito para ser lido pelo outro. Ele é um embrião. Ele ganha vida, com o olhar do outro. Aqui fica meu convite. O livro, como você disse, um parto. Quando nasce, já não é mais seu.
A poesia para mim é muito fugaz, muito rápida, ela vem e vai, e some, me atravessa e registro. A poesia quer viver e ela faz da gente um instrumento para se colocar o ato poético. É como se a gente abrisse a porta da criatividade e ela se sentisse à vontade para vir. Às vezes ela vem com muitos recursos, às vezes, ela vem um pouco mais garrada e aí a gente vai trabalhando, como um artesão. É como no poema abaixo, SINAIS DE DENTRO.
SINAIS DE DENTRO
O que é maior em mim
Chama mais forte os determinantes sinais
Ouriçados vem os ruídos
Embalados para nos alcançar
Nus desvios
Não duvides dos retoques a trotar
Com todas as forças fantasiar
As coisas que me levam
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