Alessandra Amaral - poeta da linguagem Lacaniana: somos um poema! (Parte I)

Cada poeta tem uma trajetória marcada pelo seu ser e pelo tempo em que vive. Na semana passada, trouxe nesta coluna, uma poeta que recontou a história da Guerrilha do Araguaia, em seus poemas. Hoje, apresento uma poeta voltada à linguagem psicanalítica, sua profissão e sua paixão!

P - Alessandra Amaral, qual é a sua trajetória profissional? E como você chegou à literatura, à poesia?
R - Sou conhecida aqui pela área da psicanálise, sou psicanalista e atuei na Delegacia das Mulheres, na UPA e no consultório. Mas tem uma história interessante de como cheguei à poesia. Quando eu mudei para Divinópolis, tinha 6 anos de idade, vindo de Goiânia (Goiás) e eu ia todo dia para a Biblioteca Ataliba Lago. Passava o dia todo naquela parte infantil. Eu estava num mundo novo, terra nova e eu me refugiava nos livros. Então, desde cedo, o mundo da leitura, dos livros, me fizeram companhia.
Um dia fugi da ala infantil e fui pelos corredores. Lá tinha uma prateleira em que estava escrito poesia. Aí eu peguei um livro, bem encima, custei a pegar. Li e não entendi nada. Pensei: meu Deus, aqui tem um mistério. Eu não lembro o título, mas na capa tinha a palavra estrela. A gente sabe, pela
psicanálise, que há a via do desejo na gente...desde muito cedo, depois de alfabetizada, sempre li, tinha os diários que escrevia. Então eu leio desde que me entendo por gente! A leitura é uma necessidade. A escrita é outra necessidade minha, para falar da condição humana.
OPSSS
Falo de tantas bobagens
Imagino quantas bobagens
Penso continuar com muitas bobagens
Contribuo nas várias bobagens
Recuso outras inquantificáveis bobagens
Não creio que acredito em muitas bobagens,
Mas...
Produzo bobagens
Por quê (?)
Vivo com as diversas bobagens
Opsss
Mas que bobagem!!!
Queria dizer Bagagens
P - E a poesia?
R - Sempre nas minhas pós-graduações, eu ouvia o pessoal dizer “minhas poesias”. Um certo dia, eu estava andando numa rua do bairro Esplanada, eu me deparei na barraca de verduras (na frente da Biblioteca) com a Adélia Prado e seu filho. Aí eu conversando com ela, numa alegria, e dizendo para ela que utilizada os textos dela, sobretudo aquele verso que diz que a “memória ama fica eterno” ela me disse: - por que não escreve as coisas deste jeitinho que está falando. Aquilo me deu um impacto. Eu digo sempre que Adélia Prado nos convida a ler e escrever, esta generosidade da alma poética dela, nos alimenta e nos faz produzir.
Aí veio a produção do meu livro. Eu sempre escrevi meus textos, mas sem a pretensão de publicar livro. Aí quando ela falou aquilo, fui fazer um garimpo nos meus textos, revisei, criei novos e assim nasceu meu livro, resultado também de minha análise pessoal no divã, com o meu terapeuta.
Então o livro DESEJO GRAFADO nasceu dali. O primeiro poema do livro é dedicado a Adélia Prado, minha eterna fonte poética, e o segundo, para o meu analista no divã, porque foi um mergulho profundo, nada fácil, mas poético. Nós somos poéticos. Nossa escrita é poética.
Como já disse Lacan, somos um poema! Hoje, escrevendo mais dois livros (académicos) literalmente entendi, que me alimento na leitura e produzo leitura por necessidade de compreender minha condição e o meu modo de ser.
Nada melhor do que ler a produção da poeta para resignificarmos suas palavras!
DESEJO GRAVADO
Estou em tudo aquilo que me desconheço
re-conhecendo
Sou Desejo Gravado
artisticamente
uma criada

da Caligrafia
à Cartografia
nomeada
poema
em mim re-nomeio
poetisa
tatuada
na carne viva
a beleza
(a)isthetikós
dá
Vida
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