O poeta das águas e dos povos amazônicos: Thiago de Mello

Cláudio Guadalupe
31 de março, data do golpe militar-civil de 1964, nos deixou amargas lembranças. Mas como poetou Mário Quintana: ELES PASSARÃO, EU PASSARIM! Os militares se foram e Thiago de Mello ficou! O Poeta, nascido em 30 de março de 1926, em Ribeirinhas (Amazonas), ainda é pouco conhecido do leitor. Poeta do rio Amazonas, que brota nos seus olhos tristonhos; poeta da floresta, que verdeja em toda verdade pelas suas mãos; poeta da múltipla fauna e flora, num tumulto por uma bela esperança.
Thiago de Mello bebeu na fonte da sabedoria das águas barrentas amazônicas, servidas aos ribeirinhos, da borracha retirada nas madrugas, dos indígenas, que abraçam as árvores e os curumins e da mitologia fecundada pelas vitórias régias.

É pensando na falta que ele faz para se ler ainda o nosso cotidiano latino-brasileiro e no pouco conhecimento da nossa juventude sobre este belo poeta, é que vamos celebrar hoje seu nascimento e seus versos belos da poesia social brasileira. Senão vejamos!
TERCETO DE AMOR
Sirva o meu amor de voo.
Sirva a tua vida inteira
Do azul!
Eu sirvo de pássaro.
Neste singelo terceto, o canto já é amor plural de significâncias: da fauna e seus sonhos! Mas continuemos a descobrir a sua poética luminosa. Olhem o que ele tem a nos dizer no livro FAZ ESCURO MAS EU CANTO (de 1966), já na resistência aos golpistas militares:
A VIDA VERDADEIRA (Fragmentos)
Pois aqui está a vida.
Pronta para ser usada
...
Não, não tenho caminho novo.
O que tenho de novo
é o jeito de caminhar.
aprendi
o caminho me ensinou
a caminhar cantando
como convém
a mim
e aos que que vão comigo
Pois já não vou mais sozinho.
Foi nesse mesmo livro-libelo à liberdade, afrontada pelos militares, é que nasceu o poema mais conhecido de Thiago de Mello.
OS ESTATUTOS DO HOMEM (fragmentos)
Artigo I – Fica decretado que agora vale a
verdade
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida
verdadeira..
...
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo Único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
Mas é do livro MORMAÇO NA FLORESTA (1981), em pleno fim da Ditadura Militar, que encontrei o poema que mais me identifico. Nós o escrevíamos nos jornais libertários, nos murais e nas palavras de ordem, do movimento estudantil, aqui mesmo em Divinópolis, na UMEG (antigo INESP), nos movimentos do início dos anos 1980. Quem viveu dirá: cantávamos alto a liberdade!
JÁ FAZ TEMPO QUE ESCOLHI
A luz que me abriu os olhos
para a dor dos deserdados
e os feridos de injustiça,
não me permite fechá-los
nunca mais, enquanto viva.
Mesmo que de asco ou fadiga
me disponha a não ver mais,
ainda que o medo costure
os meus olhos, já não posso
deixar de ver: a verdade
me tocou, com sua lâmina
de amor, o centro do ser.
Não se trata de escolher
entre cegueira e traição.
as entre ver e fazer
de conta que nada vi
ou dizer da dor que vejo
para ajudá-la a ter fim,
já faz tempo que escolhi.
É isto. Ele fazia da poesia, um canto para a justiça, a liberdade, a soberania do povo brasileiro Thiago serviu mesmo de pássaro para a nossa juventude!
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