Cida Pedrosa: poeta que cantou a Guerrilha do Araguaia

Cláudio Guadalupe
O Brasil tem muitos fatos ocorridos na história recente ainda abertos ao estudo crítico de historiadores. Marco da resistência civil contra a Ditadura Militar (1964-1985), a chamada Guerrilha do Araguaia, é um destes fatos. Organizado em plena Amazônia, no Bico do Papagaio, entre os estados Tocantins, Pará e Maranhão. O conflito armado envolveu 63 guerrilheiros contra as forças militares-civis da Ditadura.
Em pleno período de menor liberdade, muita repressão, fechamento de sindicatos e do Congresso Nacional, o PC do B, retirando seus militantes perseguidos nas cidades, buscou criar uma estratégia de guerra popular, do campo para a cidade, para derrubar o regime militar e conquistar um governo popular-socialista.
O filósofo Aristóteles, em sua POÉTICA, afirmava que os historiadores escrevem sobre os fatos que acontecem, mas o poeta, escreve o que deveria acontecer. A poeta recifense (PE), Cida Pedrosa, fez exatamente isto: reescreveu poeticamente a luta do Araguaia,com a ênfase numa história cultural da época e sob a ótica
dos chamados “paulistas”, os guerrilheiros que embrenharam nas ma-
tas, tornando-se camponeses, lideranças comunitárias, médicos,
enfermeiros, alfabetizadores e organizadores do povo das selvas.
A poeta, Cida Pedrosa, já consagrada pelo prémio JABUTI, no gênero
poesia, com o seu livro “Solo para Vialejo“ (2019), publicou então
ARARAS VERMELHAS, um longo poema épico, para contar este
conflito no interior do Brasil, das lutas pelas liberdades e justiça na região do rio Araguaia. Vejamos então a sua poética revolucionária, que se inicia apresentando o cenário das lutas!
“a amazônia é a cobiça dos vis valóes do valor
a amazônia barriga placentária do mundo cortada por
veias e vasos
Varizes
varises
varises
Varises
Veias vasos e valas
Veias vasos e velas
Veias vasos valas velas e vultos” (pp.16)
Ao longo do poema, ela conta a chegada dos “paulistas” na região e como eram respeitados os guerrilheiros pela gente do lugar. Mostra em versos, as figuras de Osvaldão (comandante negro da guerrilha); a Dinalva, geólaga que se torna também comandante, pois “ela chegou para o combate e sabia mirar / mirar / mirar”; os velhos João Amazonas, Elza Monerat, Maurício Grabois, Ângelo Arroyo e outras lideranças operárias e estudantis. Mas foi em abril de 1973 que os conflitos se intensificaram e vieram as mortes daqueles 69 combatentes.
A poeta Cida Pedrosa escreve um dos poemas mais líricos para a comandante “Dina”, que virou um mito, pois as forças militares não conseguia prendê-la e nem matá-la, pois ela virava, segundo a lenda, uma borboleta. Leiam que belos versos:
“Corria a lenda que a comandante era invizível
Invisível
Invisível
Invisível
E que se transformava em borboleta” (pp.40)
Mas a guerrilha foi desbaratada por três operações das forças militares, na qual somou mais de 6 mil militares do exército, da aviação, de espiões do DOPS, além dos capangas pagos da região. E foi muito violenta a repressão: degola, era muito usada; uso de pau de arara, buracos para se colocar os corpos; carros passando por cima dos prisioneiros, que se tornaram presos desaparecidos até hoje! É a poeta que nos conta:
“pega o camponês pega o camponês pega o camponês

Olha o pau-de-arara
Olha o pau-de-arara
Olha o pau de arara
O buraco na mata
A formiga no mel
A formiga no mel
A formiga no mel
Olha o telefone olha o telefone olha o telefone” (Tapas no ouvido) (pp. 51/52) Fotos da época
Por fim, a autora num epílogo, canta o papel da juventude na luta pela democracia no país, em versos de uma lírica popular, como veremos a seguir.
“invoco neste momento
a musa da cor vermelha
que se esvai em poesia
como se fosse centelha
traçando o laço de fita
contando a vida não dita
escrita em caco de telha”
...
“eis a razão do conflito
pouco são donos de tudo
e muitos não têm nada
falando tudo em miúdo
posto em escravidão
restando a rebelião
rara não viver desnudo...” (pg. 139/140)
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