Prosa com um olhar poético: a violência na sociedade

Nessa coluna, a gente sempre apresenta os poetas da cidade, região e do país. Hoje, vamos apreciar dois livros de prosa, um de romance e o outro de contos, de autores divinopolitanos, que li recentemente: Vinícius Gontijo e Júnea Assir.
Os dois livros questionam os problemas da convivência, das relações de dominação e da brutalidade, na sociedade brasileira. Mas os Investigam na perspectiva das pessoas dos setores populares, que enfrentam uma vida de exclusão. Como vivem as crianças dos bairros periféricos? E os camponeses sem terra? Como reagem os operários embrutecidos pelo capital? E as mulheres de diversas situações sociais, ainda marcadas pelo machismo, pela misoginia e a solidão?
O escritor Vinícius Gontijo, escritor e redator publicitário de Divinópolis, mestre em História, pela UFOP, com um olhar poético, no segundo livro, intitulado “SEM”, disseca a vida das nossas crianças, sob o desígnio da violência: a dominação paterna, as relações de mando no mundo do trabalho (a dominação patronal) e o convívio conflituoso com os amigos e familiares.
No livro, com capítulos iniciados por frases impactantes, o escritor apresenta o cenário de crueldade no cotidiano das classes populares. As frases negritadas invocam, por exemplo, o alívio de fazer “dezessete anos no mesmo ano que nosso pai faleceu”, mesmo que junto às tragédias das várias mortes de amigos e parentes; ou o duvidar se há saídas para a situação de pobreza, no capítulo “Quando o pobre deixa de ser pobre?”; ou a intuição das crianças no capítulo “Depois do primeiro tapa, nunca se sabe quando será o segundo” e a constatação da humilhação por pertencer às
classes sociais excluídas, como no capítulo “A gente vivia dentro da roupa dos outros”. E por fim, quase terminando o romance, o autor lança a frase de muita perplexidade: “Amanhã é um novo dia é uma ova!”.
Mas no livro “SEM”, há também exemplos de boas possibilidades na vida dos miseráveis do nosso país, quando o autor retrata o poder da literatura, como saída para as crianças, nos relatos sobre a Biblioteca Pública Ataliba Lago e a Boutique do Livro, ou quando lembra as relações mais amorosas com a mãe e os amigos/amigas.
Sem dúvida, um livro simples, mas incisivo, que traz memórias mais profundas de nossa infância e uma foto real, dinâmica da violência nas relações sociais e familiares.
A segunda escritora é Júnea Assir. jornalista e professora de português, na Espanha (Madri), como escritora, faz um belo trabalho com a literatura brasileira, na capital espanhola.
No seu primeiro livro, “TODAS AS MULHERES” (2024), a escritora apresenta a verve da literatura mineira em recontar, por versos, contos, crônicas ou romances, o universo da mulher mineira. E como o autor anterior, Vinícius Gontijo, Júnea Assir tem a hipersensibilidade para com a situação das classes populares e as relações autoritárias do poder, sobretudo em relação às mulheres.
A autora vai recolhendo da realidade social, as várias personagens femininas, que transitam nas ruas da exclusão: as prostitutas, as trans, as mulheres fortes e marcantes, e, como não poderia deixar de serem, também as personagens femininas libertárias, fazedoras de outros papéis da mulher brasileira.
Madalena, Julieta, Ágata, Lana, Natália, Susi, Ada, Beatriz, Cíntia, Jandira, Maria, são nomes que consubstanciam as mulheres do nosso país. Há entre elas, a expansiva Madalena; a negra e sensual Julieta; a transgressora da ordem, Ágata; a romântica moderna, Lana; a incisiva e politizada Natália e a representante do movimento LGTBQIA+, a trans Susi. A autora Júnea Assir dá voz às essas diferentes mulheres e, de acordo com a personagem Maria, em um dos contos do livro, pode-se chegar a uma conclusão:
“A vida é muito
curta pra gente
se arrepender,
num dá tempo.
Tem que aprender
com os erros e
continuar a viver”.
Cláudio Guadalupe
Poeta integrante da ADL e do ARTEFERIA
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