Osório Garcia: artista plástico e poeta da angústia

A poesia sempre esteve ligada às outras artes como o canto, a dança e as artes plásticas. Essa é uma constatação desde os primórdios da humanidade. Na época, os primeiros homens já se encantavam com o mundo, cantando, dançando, desenhando nas grutas, e ali, a poesia já se manifestava!
Ser poeta, não é ser um homem tão diferente dos demais mortais. Ser poeta é só um contínuo exercício do sentimento, da percepção diferenciada das coisas e do trabalho com as palavras e imagens, para exprimir outro mundo possível!
Foi o caso do artista plástico Osório Garcia (Itapecerica/MG), que enfrentando grandes dificuldades de aprendizagem na escola, pois era um neurodivergente, e tinha a dislexia e discalculia, que lhe roubavam a paz, na leitura e nos estudos, desenvolveu outra habilidade: o desenho. Como tinha dificuldades de escrever, ficava desenhando, copiando as capas de discos de rock, de gênios da pintura e aos 15 anos já era um bom desenhista. Depois, na vida adulta, tornou-se um artista plástico renomado.
E a poesia entrou na sua vida devido às influências de seu pai, um socialista, dono de uma vasta biblioteca, onde se lia muitos poemas (rompendo as dificuldades) e tinha-se a uma formação política muito forte.
Osório Garcia sempre diz: “sou um poeta pontual, que escreve sobre as minhas angústias”. É essa poética que iremos ler, retirados da Antologia Poética de Inverno, de 2019, da MIDIAMINAS (Formiga/MG).
PREÇO JUSTO
Quanto custa um anel de brilhante?
Os braços de um menino em Serra Leoa.
Quanto custa um casaco de pele?
Uns cinco filhotes de foca.
Quanto custa um rolex de ouro?
Uns trinta pivetes de rua.
Quanto custa um carrão importado?
Três ou quatro ônibus, lotado.
Quanto custa uma cobertura?
Um quarteirão de barracos.
Quanto custa um jatinho?
Uma fila sem fim no hospital.
Quanto custa um quilo de pó?
Cem litros de sangue.
Quanto custa uma vida?
É de graça.
Quanto custa a sua opinião?
Uma televisão.
A poesia também está nas suas esculturas, nas ilustrações de livros da literatura infantil, escritos por ele ou por outros autores, nas pinturas e na sua postura frente aos movimentos culturais de Itapecerica e em Formiga/MG. Leiamos outro poema dele.
A CIDADE É DEMAIS
Minha cidade cresceu demais
Virou uma penteadeira de puta
Barraca de camelô
Para-choque de caminhão
Um carnaval de infernos...
Tudo aqui é colorido demais
Brilhante demais
Piscante demais
Ocupado demais
Ofuscante demais
Barulhento demais
Violento demais
Sujo demais
Feio demais
Cheio demais
Fedido demais
Moderno demais
Tudo é demais
E de mais
Não aguento mais...
Vou-me embora daqui
Pra menos.
CLÁUDIO GUADALUPE
Poeta integrante da ADL e do ARTEFERIA
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