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Cláudio Guadalupe

O Encontro Raízes da ADL - Folclore e a força da poesia social

Por Redação Jornal Agora · Redação· 4 min de leitura
O Encontro Raízes da ADL - Folclore e a força da poesia social

Cláudio Guadalupe

No dia 22/08, o Dia Internacional do Folclore, a Academia Divinopolitana de Letras – ADL, através do Núcleo de Estudos Folclóricos - NEF, realizou o Encontro Raízes de 2026, envolvendo os fazedores da cultura popular de Divinópolis e Carmo do Cajuru. Foi uma tarde inusitada, com bons momentos para o público, atento às manifestações. Lá se apresentaram o Reinado, a Folia, a música caipira e folclórica, a poesia, o canto coral do Undarirê, contadores de histórias e houve exposições da arte popular – esculturas e artesanato de artistas de Divinópolis e Cajuru, sob a coordenação do Frei Leonardo Pereira.

Mas hoje quero ressaltar as contribuições dos poetas que lá estiveram, do Coletivo Arteferia, e que deram o seu recado! Vamos ler alguns poemas de Lucas Galvão, Jéssica Sabrina, Ester Nunes e Cláudio Guadalupe. 

Lucas Galvão é nosso conhecido poeta, com uma performance de poesias críticas e sociais. Com cinco livros já lançados: 8 sintomas de poesia – 2016; Relatos poéticos e políticos de um coração canceriano – 2017; Cada um com seus poemas, 2021; Final de expediente – 2023 e o último Cavalo: Poesia pra Ler de Pé – 2025, no Encontro Raízes, encantou a plateia, com seus versos agudos. Leiam abaixo!

                                             SONHO

O sonho do padeiro

acaba logo cedo

às cinco

quando chega

na padaria e fabrica

sonhos para aqueles

que tomam café

sem pressa

e sonham à noite

com o sonho do padeiro

quentinho.


A outra poeta do Coletivo Arteferia foi a Jéssica Sabrina, com uma poesia lírica, cortante e sagaz. A poeta já lançou os livros "Conto Versos em Prosa" e "eu ainda sei falar sob amor". No Encontro teve uma performance incrível e ela vem se tornando referência na poesia negra dentro do Coletivo.


raiz frondosa

aparência de rainha

baobá sagrado

solo fértil

plantio


filha de mãe áfrica

rodo a saia

me movimento

a inspiração que oxigena meus versos

é brisa suave

furacão 

é vento


da diáspora 

trecho 

acompanho os meus em procissão 

machado de assis abriu caminho

mas sigo a trilha de conceição 


o black coroa orienta

atesta a realeza

escrita na profecia:

meu nome é impronunciável

mas meu codinome é poesia


Mas houve um outro momento que se destacou muito! Foi quando a jovem poeta de 16 anos, Ester Nunes, vibrantemente, declamou uma poesia sobre o preconceito racial sofrido pela juventude negra no país!


TERRA DE FANTASIA (fragmento) 

          

Nessa terra de fantasia, o racismo é alegria. 

Onde separa o preto do branco, o rico do manco                                                                  

e para o pobre só sobra o trampo. Trabalhamos para viver, 

trabalhamos para comer, trabalhamos para usar, 

trabalhamos para viver mas a gente vive para trabalhar. 

Temos o mesmo sangue, os mesmos órgãos, os mesmos olhos, mas nós somos diferentes, eu já ouvi falar. Nessa terra de fantasia, o racismo é a magia, onde controla o trono, o bolso, o povo, e ganha o dobro que qualquer um à nossa volta...Eu sou negra! Tenho orgulho de falar que nasci preta. E eu não ligo para os racistas, me joguem na fogueira, me cortem inteira, me queimem inteira...Talvez assim eu ensine a vocês, como se cria uma mulher guerreira.


Por fim, o Cláudio Guadalupe, coordenador do Encontro Raízes, também declamou um poema e lançou o último caderno poético, com um cordel sobre o Folclore em Divinópolis e Região. No poema abaixo, suscita as personagens do nosso folclore.


MEMÓRIAS DE MEU FOLCLORE

Meu Saci é mágico                                                                                                                 

fuma as minhas vibrações                                                                                                       

e se esconde sob meus nervos                                                                                                  

e quando olho, só o vejo   

cuidando do meu jazido verde                                                                                                     


Minha Cuca é enorme dentro de mim

assusta-me com as estrelas                                                                                                

abraça meu medo imberbe    

desenlaça aquele moleque menino                                                                                           

no copo de minha sede                                                                                                           


 Meu Curupira é voraz e reativo                                                                                                      

 se cortam as árvores, é revolta em fogo                                                              

 e sugam os rios, faz a revoada dos pássaros                                                                       

 e quando canta só, emudece as matas                                                                                

 num verde insano em que me habito                                                                                        


Corre minha Mula sem Cabeça, é marota                                                                            

se inflama com o poeta, de instinto absorto   

tremula na infância no porão da casa                                                                     

quando escrevo, se refaz na memória 

de meu folclore                                                  

um letramento humano de muito desgosto!


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