Carregando clima…
Cláudio Guadalupe

Poesia da língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Portugal

Por Bruno
Poesia da língua portuguesa: Cabo Verde, Angola e Portugal

Cláudio Guadalupe

Torcíamos, nós brasileiros, na Copa Mundial, para o time de Cabo Verde. O goleiro Vozinha chamou a atenção para aquele time de guerreiros, do continente africano. 

No livro PALAVRA DE POETA, de Denira Rozário, há uma antologia de poetas de Cabo Verde e Angola. Vamos conhecer a poesia africana destes países? 

Cabo Verde tem um movimento modernista na poesia (ligado ao modernismo brasileiro) com autores como Aguinaldo Fonseca, João Rodrigues, Mário Fonseca, Vera Duarte, entre outros. Em quase todos, há uma poesia lírica, mas comprometida com a realidade político-social, sobretudo às lutas pela independência da nação e as questões do racismo, da cultura negra e a afirmação do continente africano. 

Vamos começar pela autora Vera Duarte (1952- Cabo Verde), juíza do Supremo Tribunal da Justiça, professora, presidente da Associação dos escritores Cabo-verdianos, que tem uma poesia lírica. Vamos conhecer sua poética?

MOMENTO VI

(desabafo)

Vai e grita pelas achadas imensas 

                   

que a vida se conquista

contra a violência e a morte.

Diz

do amor que brota das areias

do mar solitário

do abraço fecundo que nasce

dos confins de nossos seres.

Diz tudo

mas não digas que te amei

— e amo —

pois chega-me a morte pela recusa.

 Não quero morrer duas vezes!

Já de Angola, também país de língua portuguesa, na África, vou apresentar o poeta Jorge Macedo (1941-2009), que tinha uma poesia muito comprometida com as lutas pela independência de seu povo. Leia abaixo um poema muito bonito do autor!

AQUELA NEGRA

de enxada em punho

,

lutando pela minha fome;

aquela preta que jorra suores 

na minha sede;

e que vai de lenha à cabeça

porque o frio me consome;

aquela negra pobre, sem nada,

que vende os panos para me vestir,

que chora nas ruas o meu nome,

aquela negra é minha mãe

Da África para Portugal, a chamada poesia contemporânea portuguesa, tem nomes de peso como Isabel Meyrelles, Florbela Estanca e o grande Fernando Pessoa. Isabel Meyrelles (Portugal, 1929), é uma poeta e escultora, que tem uma linguagem surrealista e no livro PALAVRAS NOTURNAS & OUTROS POEMAS, tece e esculpe palavras mágicas. Senão vejamos!

Mais uma vez

O tempo estilhaça-se

Nas minhas mãos

Mais uma vez

Tu terás o silêncio

À minha volta

***

Palavras noturnas

Murmuradas

Palavras como borboletas

Ofuscadas

Palavras de amor

Afogadas

Na madrugada nascente

Outra autora portuguesa que faz a nossa cabeça é a poeta Florbela Espanca (1893/1930), por ter os versos mais líricos, mais românticos e com temáticas femininas. Vamos ler seu lirismo amoroso! 

FANATISMO

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.

Meus olhos andam cegos de te ver!

Não és sequer razão do meu viver,

Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…

Passo no mundo, meu Amor, a ler

No misterioso livro do teu ser

A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa… ”

Quando me dizem isto, toda a graça

Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:

“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,

Que tu és como Deus: Princípio e Fim! … ”

E por fim, não posso deixar de citar o grande poeta da nossa língua: o criativo, o metafísico, com os poemas mais lidos em Portugal - Fernando Pessoa (1888-1935). Dele apresento um poema marcante na poesia internacional - MAR PORTUGUÊS.

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

Compartilhe:WhatsAppFacebookTwitter

Comentários

Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.

Carregando comentários…