A poética social de Adão Ventura: poesia-denúncia!

Mês de maio é mês para debatermos o mundo do trabalho, o “fim da escravidão” (?) e a presença dos povos negros na nossa sociedade e cultura. Na literatura, podemos enumerar os poetas negros da poesia brasileira, com alguns nomes fundamentais: Maria Firmina dos Reis (1822-1917), Luís Gama (1830 - 1882), Machado de Assis (1839-1908), Cruz e Sousa (1861 – 1893), Jorge de Lima (1893-1953), Francisco Solano Trindade (1908 – 1974), Carolina Maria de Jesus (1914-1977), Abdias Nascimento (1914-2011), Conceição Evaristo (1946-presente), Sérgio Vaz (!964– presente) e Mel Duarte (1988 – presente).
Hoje vamos homenagear o poeta ADÃO VENTURA (1939-2004). Em Divinópolis, há um coletivo de literatura negra, Coletivo GRIÔ, que vem lendo e debatendo os livros que tratam da situação do povo negro em nossa sociedade. Já foram lidos: O Avesso da Pele, Ponciá Vicêncio, Recordações do escrivão Isaias Caminha, Louças de Família, e este mês, A COR DA PELE (Coletânea).
Então, vamos conhecer a poética e biografia de Adão Ventura, relembrando que o poeta esteve na década de 1990, em Divinópolis, na Boutique do Livro e na Biblioteca Pública Municipal Ataliba Lago, lançando seus livros! E, diga-se de passagem, foi um poeta que levava a poesia para as praças e ruas de Belo Horizonte e por onde passava.
Mineiro, nascido no Vale do Jequitinhonha, na comunidade Santo Antônio de Itambé (próximo de Serro), graduou-se na UFMG (Direito) e como jornalista, trabalhou no Suplemento Literário de Minas Gerais. Além de professor na Universidade no Novo México (EUA), foi presidente da Fundação Palmares (1990-1994).
Sua poética caracteriza-se pela denúncia social, com versos simples, cortantes, diretos, que recolocavam a situação de exclusão vivida pela maioria do povo, os afro-brasileiros. É o poeta do profundo sentimento do negro numa sociedade racista e escravagista. Com uma poesia-denúncia, foi engajado nas questões sociais, raciais e das manifestações da cultura popular, de sua região. Em seus livros há a presença muito forte das memórias da sua infância, no Vale do Jequitinhonha (mundo rural), de seus país (pequenos produtores rurais), seus avós e bisavós, ex-escravos no tempo do império. Vejamos um poema que sintetiza a sua poética social-racial.
PARA UM NEGRO
Para um negro
a cor da pele
é uma sombra
muitas vezes mais forte
que um soco.
Para um negro
a cor da pele
é uma faca
que atinge
muito mais em cheio
o coração.
Ou esta próxima poesia:
COMENSAIS
A minha pele negra
servida em fatias,
em luxuosas mesas de jacarandá,
a senhores de punhos rendados
há 500 anos.
Ou nesse próximo texto.
PRECONCEITO
- Muitas vezes
a cor da pele
é uma grande parede.
Daí
o abraço frouxo,
o beijo mal dado
e o sorriso amarelo.
O poeta escreveu os seguintes livros: Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul (1970), As musculaturas do Arco do Triunfo (1975), A cor da pele (1980), Jequitinhonha: poemas do Vale (1980-1997), Texturaafro (1992), Litanias de cão (2002), Duas vinhetas sobre uma viagem: África Austral (1990), Costura de nuvens (2006) e Outros poemas (1966-1987). Vamos ler mais um poema marcante do livro A Cor da Pele.
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