A poesia marginal na capital do país Nicolas Beher

Cláudio Guadalupe
Falar da Poesia Marginal, sem falar de Leminski e Nicolas Behr, seria um grande erro, pois os dois poetas fizeram história na poesia alternativa, a partir dos anos 1970.
Nicolas Behr é um poeta que se fez em Brasília (DF), pois nasceu em Diamantino (MT), e teve uma poesia irônica, sarcástica mesmo, quanto à cidade do poder central. Com poemas visuais, libelos contra a burocracia brasiliense, fez nos poemas, análises irreverentes da cidade planejada, construída por nordestinos, os chamados Candangos, mas controlada por uma elite insensível e hipócrita.

Nicolas Neher foi tão revolucionário em sua produção independente de livretos, que em plena Ditadura Militar foi preso pelo DOPS, quando perdeu vários livros que ele vendia nas ruas do DF. Acusado de atentar contra a moral, portador de materiais pornográficos, foi processado, mas depois (1979), inocentado por um juiz, que gostou de seus versos.
Vamos conhecer a sua poesia, nos livretos produzidos pelo autor, artesanalmente, em mimeógrafos: ”Iogurte com Farinha” (1977), “Grande Circular”, “Caroço de Goiaba” e “Chá com Porradas” (1978), “Palavra Final”, “Bagaço” e outros livretos, a partir de 1980.
Vamos hoje, nesta coluna perceber o quanto este poeta ainda influencia a poesia contemporânea. Vejamos.
Do primeiro livreto, “Iogurte com Farinha”, que o autor vendeu mais de 7 mil cópias nas ruas de Brasília, veremos:
a POBRÁS
Poesia Brasileira
está admitindo
palavras ideias
poetas e coragem
exigimos:
- bom comportamento
- atestado de antecedentes
- redação própria Capa do 1º livro
oferecemos:
- ótimo ambiente de trabalho
- condução para as cidades-satélites
- acidentes de trabalho à vontade
além de cantina na obra
os interessados procurem o Sr. Poema
no horário intelectual.
II
estou salvo: a poesia não é tudo!
Já do livreto “Grande Circular” vejamos outros poemas:
como anda o humor
aí em Brasília?
aqui o humor
anda de chapa branca
II
mapa na mão
olho no mapa
mão no olho Poesia visual
vamos tentar encontrar a cidade
Do livro “Caroço de Goiaba” temos esta preciosidade:
se é para o bem de todos
e felicidade geral da nação
diga ao povo
que mande o rei à pátria
que o pariu
Pois é, estes poemas-piadas fizeram história e até hoje tem poetas que os escrevem. Vamos ver alguns? Leem aí dois poemas do poeta paulista Sérgio Vaz:
a poesia INIMIGO ÍNTIMO
é o esconderijo eu sou
do açúcar meu maior inimigo
e da pólvora quando
um doce estou quieto
uma bomba me provoco
depende me soco
de quem a devora é comigo que brigo
(Sérgio Vaz,2013) (Sérgio Vaz,2013)
Outro poeta que traz poemetos críticos e audazes é o paulista José Paulo Paes. Vejamos dois poemas seus do livro “Poesia Completa” (2008)
OCIDENTAL EPITÁFIO PARA UM BANQUEIRO
a missa negócio
a miss ego
o míssil ócio
cio
0
Em Divinópolis temos bons poetas que herdaram esta verve: Lucas Galvão, Luís Mingau, David Dioli, Clara Valverde, Bruna. E em março/2026, o poeta Cláudio Guadalupe vem apresentando os “Cadernos Poéticos”, livretos com poemas-minuto, que ele vende pelas ruas. O primeiro se chama “DUELOS À VISTA (OU A PRAZO)”. Vejamos dois poemetos da obra:
a morte está assumida
a vida está no shopping
coisa mais vendida
*
a morte é quase nada
a vida é um quase todo
eu sou + ou -
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