Dois autores que nos deixaram um grande legado poético

Cláudio Guadalupe
Voltemos a minha tarefa de escrever sobre os poetas maiores de nosso país. E hoje nos aproximaremos de Paulo Mendes Campos e o negro poeta Solano Trindade. Dois nomes de peso da literatura brasileira.
Comecemos por Solano Trindade, o poeta de Recife/PE (1908 - 1974), mas que alçou voos mais altos pelo país, se tornando um líder dos movimentos culturais do povo negro, no teatro, cinema, poesia e na ação política!

O poeta negro Solano
Trindade – Poesia mais
Militância Negra
O autor publicou três livros de poesia: “Poemas d’uma vida simples” (1944), “Cantares ao meu povo” (1963) e “Poemas antológicos” (2008). E ele desenvolveu o apoio às manifestações culturais do povo negro, fundando o “Centro de Cultura Afro-brasileiro” e o “Teatro Popular Brasileiro”, onde valorizava a identidade afro-brasileira por meio da dança, do teatro, das artes plásticas, folclore e da literatura.
O poeta que afirmava que o “gemido de negro é poema”, realizou uma poética ligada à religiosidade afro-brasileira, aos valores da luta pela negritude e com elementos do folclore negro brasileiro. Vamos conhecer alguns poemas do nosso poeta!
O CANTO DA LIBERDADE
Ouço um novo canto,
Que sai da boca,
de todas as raças,
Com infinidade de ritmos...
Canto que faz dançar,
Todos os corpos,
De formas,
E coloridos diferentes...
Canto que faz vibrar,
Todas as almas,
De crenças,
E idealismos desiguais...
É o canto da liberdade,
Que está penetrando,
Em todos os ouvidos...
O poema mais famoso foi “Tem gente com fome”, na época censurado, mas divulgado pelos movimentos populares e artistas do país. Vejamos um fragmento inicial do poema:
TEM GENTE COM FOME (Fragmento)
Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome...
E por fim, um poemeto que agitou a literatura brasileira na época: CIVILIZAÇÃO BRANCA.
Lincharam um homem
entre os arranha-céus
(li num jornal)
procurei o crime do homem
o crime não estava no homem
estava na cor de sua epiderme.
O segundo poeta é mineiro, de Belo Horizonte, Paulo Mendes Campos (1922-1991). Além de poeta, foi um grande cronista, roteirista, tradutor, inclusive na literatura infanto-juvenil. Sua poesia possui um perfil mais filosófico, questionador, sob um olhar cronista de época.
Publicou nove livros de poesia e vários outros de crônicas, além de um fino jornalismo em várias publicações pelo país.
Vamos conhecer alguns poemas mais citados do autor.
TEMPO-ETERNIDADE
O instante é tudo para mim que ausente
do segredo que os dias encadeia
me abismo na canção que pastoreia
as infinitas nuvens do presente.
Pobre de tempo fico transparente
à luza desta canção que me rodeia
como se a carne se fizesse alheia
à nossa opacidade descontente.
Nos meus olhos o tempo é uma cegueira
e a minha eternidade uma bandeira
aberta em céu azul de solidões.
Sem margens sem destino sem história
o tempo que se esvai é minha glória
e o susto de minha alma sem razões.
AS MÃOS QUE SE PROCURAM
Quando o olhar adivinhando a vida
Prende-se a outro olhar de criatura
O espaço se converte na moldura
O tempo incide incerto sem medida
As mãos que se procuram ficam presas
Os dedos estreitados lembram garras
Da ave de rapina quando agarra
A carne de outras aves indefesas
A pele encontra a pele e se arrepia
Oprime o peito o peito que estremece
O rosto o outro rosto desafia
A carne entrando a carne se consome
Suspira o corpo todo e desfalece
E triste volta a si com sede e fome.
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