Literatura e música popular na carreira de Gê Lara (Parte II)

Vamos continuar nossa conversa musical e literária com um dos músicos históricos de nossa cidade: Gê Lara. Lembrando Ivan Lins, que “Cantar é reviver”, então vamos lá com mais emoção, lembrarmos os movimentos musicais e literários da nossa cidade.

Antes de continuarmos a entrevista, apresentamos aqui um fragmento, de uma bela letra, bem poética, do nosso Gê Lara. Leiam o alerta que fazia na canção TERRA.
TERRA (CD Herança, 1997)
(Fragmento)
Nem toda a água do mundo
Nem todo o fogo que ainda queima
Nem todo o ar
Nem toda a terra, jazem
Se há um pequeno de tudo
Se há uma chama que ainda chama
Ainda há tempo
Urge o momento, Terra
Mas retornando a entrevista, apresentamos também os versos abaixo, que demonstram a sua ligação com a música popular e regional. Gê Lara, você pode nos apontar músicos com quem você trabalhou, nesta perspectiva, da música regional e popular?
COROA DE SANTO REI (Fragmento)
“Ora viva a liberdade
Acabou-se o cativeiro
Mas “inda” falta igualdade
Dentro do nosso terreiro” (Era uma Vez, 2001)
R – A música que eu ouvia lá em casa, era a erudita, Beethoven, Bach, os clássicos, a MPB antiga, além da Jovem Guarda com minhas irmãs. E da rua, lá fora, tinha o Congado, a Folia de Reis, que passavam pela rua de nossa casa, vindo do Santuário para a Catedral. Eu cresci, ouvindo o barulho dos tambores, ganzás e matracas.
No início, vivia o impacto do medo em relação ao Congado, mas com o tempo, a música deles foi me cativando e fui observando, o envolvimento do povo negro, nas épocas das festas. Eu e o Lemão, já estávamos neste nicho, pois o Frei Joel gostava de pesquisar a música regional. Lá, cantávamos músicas regionais de natal.
Quando fomos fazer o CD “Cantos de Natal”, produzido por Túlio Mourão, aprendemos muito com o Frei Chico, da região do Vale do Jequitinhonha, que também pesquisava as músicas regionais do vale, e, com ele, descobrimos muitas músicas regionais.
P - Gê Lara, então quais foram as influências maiores na sua formação de músico?
R – Ah, a maior foi do Milton Nascimento, o “Bituca”, e o seu Clube da Esquina, com Tavinho Moura, Beto Guedes, Lô Borges. Foi muito impactante para mim, o disco “Clube da Esquina” (1972). Mas do nordeste, gostava demais do Fagner, Ednardo, Geraldo Azevedo. Da música internacional, sem dúvida, os The Beatles, Bob Dylan, Crosby, Still, Nash e Young.
P - E por que você criou os coros de crianças, Uirapuru e o Coro Corinho?
R – O Uirapuru está completando 25 anos de existência. Ele começou na Capela e aconteceu porque quando ainda tocava nos bares, tive um início de depressão, passava muita raiva ao tocar os bons clássicos da MPB. Cansei daquilo tudo! Aí a Roberta (Beta) me sugeriu trabalhar com crianças, no ensino da música. Inicialmente, fiquei com medo, mas comecei a estudar como ensinar música. Na primeira aula, fui muito acadêmico, mas fui melhorando e já no primeiro show da meninada, foi com Clube da Esquina.
Depois fizemos um show com o “Bituca”, em Divinópolis, e com o Saulo Laranjeira, em Belo Horizonte. Neste ano, vamos comemorar os 25 anos do Uirapuru, reunindo todos os ex-integrantes e atuais participantes.
O Coro Corinho veio de um projeto que desenvolvemos nas escolas públicas de Pedro Leopoldo, Contagem, Passa Tempo e em Divinópolis, na Escola Municipal Dona Veneza Guimarães, lá em Ermida.
P - E na literatura, como foi a experiência de escrever livros voltados para o público infantil e mais
recentemente, o livro que reporta as tradições populares, Coroa
de Santo Rei, 2025, em
parceria com o professor
Zé Heleno.
R - Eu gosto de escrever,
só não gosto de reler o que
já escrevi, me cansa. Mas
eu gosto de escrever mesmo
é letras das músicas. Me considero mais letrista do que poeta.
Eu gosto mais de escrever é para crianças, um campo onde a gente pode ainda orientá-los. E a minha infância foi muito boa, cheia de aventuras perigosas rsrs. E sempre gostei de ler muito. A diferença que fazíamos, o nosso grupo de amigos, era andarmos com livros debaixo do braço, líamos e discutíamos todos eles. Líamos muito Morris West, Herman Hesse (li dele quase tudo) e o nosso brasileiro, Jorge Amado. Lá em casa tinha toda a coleção de Machado de Assis, Humberto de Campos e Jorge Amado.
P – Algo a mais para dizer, Gê Lara?
R – Sim, para este ano, além do show de 25 anos do Uirapuru, vamos fazer, eu, Lemão e Túlio Mourão, o show A TRINCA, em Belo Horizonte, no espaço Casa Outono, em fevereiro/2026. Estão todos convidados!
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