Literatura e música popular na carreira de Gê Lara

“Divinópolis é um celeiro de músicos e poetas”, dizem pelo país! Se na poesia, temos a referência de Adélia Prado, Júlio Régis, Célio Paduani,
Hugo de Lara, Lucas
Galvão, na música,
temos Túlio Mourão,
a ex-banda Ad`Canto
(Kiko Lara, Lemão,
Lô Petrus, Jairo Lara)
e tantos outros artistas
da cidade. Mas hoje vamos abrir nossa página para o cantor, músico e escritor Gê Lara. Habita nele, a música e a literatura.
De uma família com muitos músicos, Gê Lara tem 14 CDs lançados, com canções próprias e interpretações do cancioneiro nacional. Nelas há a presença dos ritmos do interior de Minas Gerais (Reinado, Folia de Reis) e a influência marcante do admirável Clube da Esquina (Milton Nascimento, Beto Guedes, os Borges,Tavinho Moura e outros).
Ele desenvolveu também diversos projetos culturais, junto a esposa e produtora Roberta Machado (carinhosamente chamada de Beta), como os grupos vocais Uirapuru e Corinho, além de coordenar o Studio DuGê. Teve um importante papel na realização de alguns Concertos de Natal. Além disso, como escritor, lançou os livros "Tundé no Mundo da Lua", "O Último Voo da Borboleta" (com o ilustrador Osório Garcia) e o “Coroa de Santo Rei“, com o professor José Heleno e as belíssimas ilustrações de Gê Guevara.
Vamos então à entrevista!
P - Gê Lara, a sua formação musical teve a ver com o contexto cultural efervescente de Divinópolis. Como se aproximou da música?
R - Na parte musical, Divinópolis sempre viveu importantes manifestações musicais em outras épocas. Nós pegamos o rastro deste universo
musical. A nossa referência musical eram os amigos Lemão, Kiko Lara, Jairo Lara, que tinham contato com o Frei Joel. Este criou o coral dos “Pequenos Cantores da Cruz de São Damião”, que eu participei, junto ao Kiko, Lemão, Jairo Lara e o Eric. Depois o Frei Joel foi embora para Santos Dumont e o coral terminou. Então, cada um de nós, foi desenvolver-se musicalmente, tocando em escolas, barraquinhas e outros espaços.
A adolescência foi o período mais criativo. Existia o Grupo Phórmula (Kiko Lara, Lemão, Jairo Lara, Lô Petrus e o Grão). E nós tínhamos o nosso grupo: Eu, Eric, Borel e o Zé Penha. O Zé Arnaldo, estudante de história da arte, dava palestras sobre a música medieval, Barroca, Renascentista e Clássica, e nós é que apresentávamos as músicas destes períodos nas escolas, durante as palestras. A gente lia muito, estudava muito música erudita, sobretudo Bethoven, Bach e interpretávamos o Grupo Musikantiga. Mas a gente precisava de um nome para nosso grupo (o Phórmula foi para o Rio de Janeiro), e na salinha do Frei Capeta, no convento dos Franciscanos, onde sempre estudávamos e ensaiávamos, eu, olhando um dicionário, encontrei a expressão AdCantum, e daí sugeri o nome Adcantum. Depois o nome foi para o antigo Phórmula, que virou então o conhecido
AD`Canto,
P - Você poderia contar
outras passagens
marcantes de sua carreira?
R - São muitos momentos
para lembrar, mas eu
destacaria a participação nos shows de Osvaldo Montenegro, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Tavinho Moura, Pena Branca e Xavantinho e o Chico Lobo.
Nós participamos também do “Projeto Café com Leite”, com músicos de Minas e São Paulo, tocando com a presença de Beto Guedes, Túlio Mourão, Lemão (de MG) e Renato Bráz, Inezita Barroso, Mônica Salmaso (paulistas), no Sesc-Pompéia, em São Paulo.
Outro momento importante foi o “Projeto Sexta-Básica”, do prefeito Aristides Salgado, organizado por Emerson Penha, onde toquei com o grupo Boca Livre e Tavinho Moura.
Foi significativo para mim, a nossa participação nos Festivais de Música, dos anos 1980, como o II FECOM, que deu muita visibilidade para os músicos daqui e ganhei o segundo lugar.
Fizemos também bons shows na Capela de Santa Cruz, com o povo daqui. Outro momento importante foram os concertos de Natal, quando os jovens, que estavam fora da cidade, se reuniam para tocar, no final de ano, no período natalino. Aí organizamos o “Concerto de Natal”, existente desde o ano de 1973.
Finalmente, nessa conversa,
recheada de causos e muita
música, apontei a carga poética
de algumas de suas letras, quando ele apontou no CD “Herança”, a letra da canção “Eterno Instante”, que reproduzimos abaixo, para encerrarmos a primeira parte da entrevista com este músico sensível.
ETERNO INSTANTE (Fragmento)
Era um menino Ganhei mais tempo
Ganhava a rua e tempo sonhando
Era o início em ver o mundo
A vida nua seguindo o vento
...
Eu sei, eu via o mundo
Com os olhos presos num segundo...
Eu sei, eu sei, o espaço
É o eterno dentro de um pedaço.
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