Carregando clima…
Cláudio Guadalupe

A poesia mineira na voz de dois autores

Por Bruno
A poesia mineira na voz de dois autores

O poeta divinopolitano Hugo de Lara dizia que livro de poesia tem que ser menos denso, com poucos poemas! Eu não concordo. O poeta é quem deve ditar seu o fôlego. Como afirmou Wagner Vieira, no poema “Defeito de fábrica”, “os poetas se contentam com Tudo, defeito de fábrica”.

Wagner Vieira é poeta, editor e jornalista.  Autor dos livros “Franciscantos”, “Enquanto dorme a sua face” (pela Lesma Editores), e do mais recente, “nãoNão!”, publicado em 2025, pela Tabula Rasa. Wagner Vieira, formado em Filosofia, Comunicação Social, História e Literatura, é atualmente, diretor da editora Tabula Rasa. Foi fundador do Coletivo LESMA, onde atua há mais de 20 anos com o coletivo, levando a poesia para várias cidades mineiras, pelo projeto Abril Poético.

Os seus dois últimos livros, sobretudo o “nãoNão”, há uma diversidade de poemas, de versos rasgados, com formulações que trabalham as contradições humanas, com a agudeza social em Hai Kais, poemetos ou em longos poemas, carregados de uma profundidade filosófica. Vamos ler alguns poemas dos dois livros! Comecemos pelo “Enquanto dorme a sua face” (2021), com o poema POESIA:

“para entender não tente

 pois é mais simples

 que o nascimento

 da semente” (pp. 50) 

No último livro, “nãoNão” (2025) que acabei de ler esta semana, há preciosos poemas, formas poéticas bem trabalhadas, de forte conotação política e muito líricas. Vamos lá!

BANCO

Tempo de acúmulos

Onde se reza pelas almas

Dos números.   (pp.32)

WELTSCHMERZEN

“Há os que têm

Um lugar ao sol

E, para zelar, um nome.

Há os que tem

Que encontrar um lugar

Para passar fome” (pp.101)

SHORT STORY

“Demorou muito

para começar

e depois do fim

parecia que nunca ia acabar

O nosso amor durou

o que tinha que durar

mais do que eu esperava

menos que o meu All Star”.

Agora vamos conhecer o poeta negro e ativista cultural, Lauro Cornélio da Rocha, com uma poética de crítica social. Mineiro, nascido em Rodeiro e criado em Ubá/MG, é filósofo, pedagogo e mestre em História Econômica. Hoje está aposentado como coordenador pedagógico, quando foi responsável pelas discussões de currículo e relações antirracistas, em São Paulo.

Autor do livro “50 anos: 50 Poemas 05 crônicas” e organizador de “Versos do Co- 

tidiano”. Possui poemas publicados na Antologia Poética “ORÉ”, de Caxambu, além da publicação do Gibi “Zumbi e o Dia da Consciência Negra”. Vamos então conhecer a sua poética. O primeiro poema, tem um lirismo numa perspectiva histórica

       POR MIM MESMO

        Sou assim: Lindo...

                 Intenso...

                     E...

                 Ousado...

     Ultrapasso os limites...

                De possuir...

          Ou ser possuído...

                Porque...                        

            Sou memória...                                                                                                    

               Sou amor...

             Sou história!

O poeta possui um lirismo amoroso, com uma simplicidade, liga à poesia popular.

MARIA DE MIL ENCANTOS

Donde vem essa mulher?

Das árias de Vanessa?

Da suavidade de Malungo?

Da audácia de Peter Tosh?

Donde vem essa mulher?

De beleza sublime!

Donde vem essa mulher...

Maria de mil encantos!

És filha do vento.

És a brisa...

No entanto...

Que de feliz se fez pranto

Por fim, a poesia negra, de denúncia social, num país marcado pelo racismo estrutural.

ÚLTIMO ATO

Corpos negros jogados na cama

Lá fora mar... vento e pedras

Corpos negros jogados na cama

Inertes... imóveis... invivos

Corpos negros jogados na cama

Como se o tempo não fosse tempo

Corpos negros jogados na cama

Qual torres gêmeas a espera dos aviões

Corpos negros jogados na cama

O nada após o tudo

Corpos negros jogados na cama

o último ato

Compartilhe:WhatsAppFacebookTwitter

Comentários

Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.

Carregando comentários…