Poesia para o Dia da Consciência Negra

Cláudio Guadalupe
Há na literatura brasileira, a tradição da poesia negra, que denuncia o escravismo, as condições de vida injustas da população preta e o racismo estrutural na sociedade. Afinal de contas, foram mais de 300 anos de escravidão, que formou, ainda persistente, uma sociedade preconceituosa e racista.
A POESIA NEGRA surgiu no Brasil no século XVIII, com Gregório de Mattos, Gonçalves Dias, Tomaz Antônio Gonzaga, Alvarenga Peixoto. Já no século XIX, com o abolicionismo crescente, tivemos a presença dos poetas Maria Firmina dos Reis, Castro Alves, Cruz e Souza, José do Patrocínio, Luís Gama, Souzândrade, Fagundes Varela e tantos outros.
Nos séculos XX e XXI, novos nomes se somam à poesia negra: Oswald de Andrade, Jorge de Lima, Solano Trindade, Adão Ventura, Cassiano Ricardo, Raul Boop. Mais recentemente, temos Conceição Evaristo, Sérgio Vaz, Miró, Ryane Leão, Mel Duarte e Daniella de Almeida. Comecemos então pela poeta com longa participação na poesia negra brasileira, Conceição Evaristo (1946). Vamos ler um poema dela abaixo.

CERTIDÃO DE ÓBITO
Os ossos de nossos
antepassados
colhem as nossas perenes
lágrimas
pelos mortos de hoje.
Os olhos de nossos antepassados,
negras estrelas tingidas de sangue,
elevam-se das profundezas do tempo
cuidando de nossa dolorida memória.
A terra está coberta de valas
e a qualquer descuido da vida
a morte é certa.
A bala não erra o alvo, no escuro
um corpo negro bambeia e dança.
A certidão de óbito, os antigos sabem,
veio lavrada desde os negreiros.
Outro poeta que destacamos é Jorge de Lima (1893-1953), que com uma poesia moderna, descreveu as lutas e vivências dos negros, como no poema abaixo.

REI É OXALÁ, RAINHA É IEMANJÁ
Rei é Oxalá que nasceu sem se criar.
Rainha é Iemanjá que pariu Oxalá
sem se manchar.
Grande santo é Ogum
em seu cavalo encantado.
Eu cumba vos dou curau. Dai-me licença angana.
Porque a vós respeito, e a vós peço vingança contra os demais aleguás e capiangos brancos.
Agô!
que nos escravizam, que nos exploram,
a nós operários africanos, servos do mundo, servos dos outros servos.
Oxalá! Iemanjá! Ogum!
Há mais de dois mil anos o meu grito nasceu!
Na poesia contemporânea, temos o poeta Sérgio Vaz (1964), mineiro que vive em São Paulo, com uma poesia forte, de muita crítica social. Ele organiza, em São Paulo, o movimento de centenas de poetas, da poesia de rua, pela COOPERIFA. Leiamos um texto bem forte do poeta!
CONSCIÊNCIA E ATITUDE

Que a pele escura
não seja escudo
para os covardes
que habitam na senzala
do silêncio.
Porque nascer negro
é uma consequência:
Ser, é consciência
Para fecharmos a matéria, queremos trazer aqui um poema de uma slamer, a Daniella de Almeida, batalhadora da poesia de rua, que no livro “QUEREM NOS CALAR: Poemas para serem lidos em voz alta” (2019), faz uma defesa intransigente da mulher negra brasileira.
PRETA, LIBERTA-SE (Fragmentos)
Chamaram-me de pinche.
Fizeram-me odiar minha cor.
Fizeram-me odiar meus cabelos.
Fizeram-me pensar que seria um objeto sexual.
Deram-me de presente vassourinhas e rodinhos quando criança.
Falaram que meu riso largo, alto e solto era safadeza.
Logo meu riso...
...
Acreditei que nunca seria bela.
Mas daí...
Eu cresci...
Me empoderei...
Agora sou feminista!
Agora amo a minha cor!
Agora só os meus cabelos sabem o quanto os amo!
Não sou objeto sexual!
...
Agora quero que me chamem de negra!
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