A poesia sobrevém da realidade em que vivemos?

Cláudio Guadalupe
De onde vem a poesia? A poesia vem de alguma força mística ou da leitura lírica e pessoal de cada poeta, de seus tempos? Há uma dívida do poeta para com a realidade, dentro das questões filosóficas-existenciais nos poemas?
Estas questões me vêm, quando divinopolitanos - desta cidade do divino, mas também da pólis (espaço político e social dos cidadãos) – comemoram, com várias atividades culturais, o aniversário de 90 anos da poeta Adélia Prado (13/12/1935). Mas qual foi a trajetória poética dessa poeta, quiçá a mais importante de nossa comunidade.


Adélia Prado, entre 1976, com seu livro BAGAGEM (que eu considero belo) e 1978, no livro agraciado pelo Prêmio Nacional Jabuti, O CORAÇÃO DISPARADO, tornou-se um fenômeno na literatura brasileira. Dois poetas e críticos literários a chancelaram: os mineiros Carlos Drummond de Andrade e Affonso Romano Sant’Anna. Este último, assim definiu a obra da poetisa:
“Por exemplo, gosto de uma poetisa recentemente lançada, a Adélia Prado, que não tem nada a ver com essa conversa toda, mas faz uma poesia que pega, você lê e passa pra frente o livro dela”.
Foi em BAGAGEM, que a literata traçou o rumo de sua poética, assentada no cotidiano das mulheres e nas implicações dos valores, dos sentimentos amorosos,
os diálogos espirituais, como no poema a seguir, logo no início da obra.
Orfandade (Fragmento)
“Meu Deus,
Me dá cinco anos.
Me dá um pé de fedegoso com formiga preta.
Me dá de um natal sua véspera,
O ressonar das pessoas no quartinho...”
O livro BAGAGEM contem poemas com muita densidade, mas também é recheado de poemetos, sínteses poéticas delicadas, descrevendo os momentos-situações de nossa comunidade. Exemplo, é o poema mais marcante do livro que vai abaixo.
Explicação de poesia sem ninguém pedir
Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.
No segundo livro, O CORAÇÃO DISPARADO, Adélia Prado continuou a investir nos poemetos singelos e significativos. Vejamos dois poemas:
Solar
Minha mãe cozinhava exatamente:
arroz, feijão-roxinho, molho de batatinhas.
Mas cantava.
Roça
No mesmo prato
o menino, o cachorro, o gato
Come a infância do mundo.
Mas a partir dos livros “TERRA DE SANTA CRUZ” e “O PELICANO”, ela aprofunda o viés místico em seus versos, tratando
sobretudo da religiosidade popular cristã. Como então a autora tratou da realidade sócio – política do país e de sua comunidade nos próximos livros? Há vínculos da poeta com os fatos da cidade?
Adélia Prado ao afirmar que “a poesia não deve ter compromissos com a realidade”, na trajetória das outras produções literárias, realmente cuidou mais das questões espirituais da religiosidade popular.
Na comemoração dos 90 anos da poeta, na Biblioteca Pública Municipal Ataliba Lago, o poeta Cláudio Guadalupe chamou a atenção para a realidade poética de nossa cidade.
Ousadia (fragmento)
Somos 13, 26, 52, todos os números cardinais para se contar os poetas
Somos todos, poetas, por aqui Adélia
Todos nós, poetas
no calor da noite insone, no trânsito
mal traçado da cidade,
na divisa entre o medo e o desmazelo
escrevendo novas palavras
metáforas, sites e anáforas
no desencontro da noite com o dia
no luar atávico ao meio dia soturno
Somos poetas de várzeas
jogamos no subsolo das gavetas fechadas
versos adolescentes de um amor tântrico
ah, bundas e seios drummondianos
ou somos oráculos de um orixá africano
versos de capoeira e samba urbano
Somos então, todos poetas...
Poetas pastores
Poetas policiais
Poetas imortais
Poetas negociantes
Poetas diletantes
Poetas banais
E forjamos a poesia da cidade, querida Adélia!
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