'AINDA ESTOU AQUI' - A POESIA PARA QUEM NÃO SE CALA (Parte II)

CLÁUDIO GUADALUPE - Poeta integrante da ADL e do ARTEFERIA
Ao festejar o filme ‘Ainda estou aqui”, criou-se um novo cenário no carnaval. Além do samba, dos blocos, das diversas tribos carnavalescas, houve uma felicidade coletiva, pela conquista do Oscar 2025. E, além disso, formou-se uma consciência cidadã.
Na coluna de hoje, vamos continuar a mostrar os grandes poetas que denunciaram os anos de chumbo, da Ditadura Militar e prenunciaram as lutas do povo. Vamos iniciar pelo poeta mineiro Affonso Romano de Sant`Anna, que com o poema homônimo “QUE PAÍS É ESSE”, invocou o passado de terror no Brasil. Infelizmente, perdemos este grande intelectual, poeta e articulador da cultura nacional. Retiramos do seu poema, o trecho 04, para lermos uma poesia social, que criticava os tempos autoritários. Vamos ler o
Fragmento 04:
Minha geração se fez de terços e rosários:
– um terço se exilou
– um terço se fuzilou
– um terço desesperou
nessa missa enganosa
– houve sangue e desamor. Por isso, canto-o-chão mais áspero e cato-me
ao nível da emoção.
Caí de quatro
Animal
sem compaixão.
Há outro poeta que sofreu muito na prisão política, nos cárceres do Doi-Codi, o chamado Pedro Tierra. Ele escreveu dentro da prisão e denunciou na época, a tortura dos presos políticos. No seu livro “POEMAS DO POVO DA NOITE” temos o Poema-Prólogo, que é muito intenso na denúncia. Vejamos.
POEMA-PRÓLOGO (fragmento)
Fui assassinado.
Morri cem vezes
e cem vezes renasci
sob os golpes do açoite.
Meus olhos em sangue
testemunharam
a dança dos algozes
em torno do meu cadáver.
...
Porque sou o poeta
dos mortos assassinados,
dos eletrocutados, dos "suicidas",
dos "enforcados" e "atropelados",
dos enlouquecidos.
dos que "tentaram fugir",
Sou o poeta
dos torturados,
dos "desaparecidos",
dos atirados ao mar,
sou os olhos atentos
sobre o crime...
Alex Polari de Alverga também descreveu as torturas nas prisões, no seu livro “Inventário de Cicatrizes” (1978). Leiamos um poema.
Trilogia Macabra: III
A Parafernália da Tortura
Nos instrumentos da tortura ainda subsistem, é verdade,
alguns resquícios medievais
como cavaletes, palmatórias, chicotes
que o moderno design
não conseguiu ainda amenizar
assim como a prepotência, chacotas
cacoetes e sorrisos
que também não mudaram muito.
Mas o restante é funcional
polido metálico
quase austero
algo moderno
com linhas arrojadas
digno de figurar
em um museu do futuro.
Espero que meus leitores busquem outros livros para entender a época da Ditadura Militar. Daí as dicas abaixo, numa pequena lista de livros de não ficção e ficção.
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…
