"Ainda Estou Aqui" - A poesia para quem não se cala (I)

Para além do resultado discutível do Oscar 2005 (Fernanda Torres é bem melhor do que Mikey Madson) , o filme brasileiro vitorioso “Ainda estou aqui”, causou nesse carnaval, a multiplicação das máscaras da artista Fernanda Torres, dos murais pintados em sua homenagem, a boneca gigante em Olinda. No dia 02 de março veio a comemoração com muita alegria, da conquista da primeira estatueta de ouro. E o filme já foi assistido por mais de cinco milhões de pessoas no país. Tornou-se um filme revelador de um triste momento histórico!
Como explicar a torcida e o sucesso do filme? Primeiro, porque ele resgatou a memória de uma época, a Ditadura Militar (1964/1984), que muita gente desconhecia ou pouco sabia das prisões e desaparecimento de pessoas. Por outro lado, esta memória contribui para o alerta à sociedade civil contra a recente tentativa de golpe de Estado (08/01/2023), em Brasília. Ambas, ontem e hoje, experiências que foram traumatizantes à democracia! Por isso, o povo gritou nas ruas, no carnaval: SEM ANISTIA, SEM A MENTIRA.
E a poesia? Onde entra nisso? Cinema, arte, literatura sempre forma meios de denúncia aos desmandos de governos autoritários. E vários livros abordaram este tema, seja na prosa, seja na poesia. Vamos conhecer alguns poetas e livros fundamentais na compreensão desse período da nossa história. Vamos lá?!
O primeiro poeta a ser resgatado do panteão poético crítico é o amazonense Thiago de Mello, principalmente nos livros “Faz Escuro Mas eu Canto” e “Mormaço na Floresta”. O poema OS ESTATUTOS DO HOMEM tornou-se um poema-cartaz, presente nas manifestações pela democracia, por seu lirismo utópico. Leia abaixo o final dos famosos artigos do poema.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
Outro poeta que foi muito lido e divulgado na luta contra os ditadores, foi Ferreira Gullar, que escreveu o poema abaixo em pleno golpe dos militares, em 1964.
MAIO 1964 (Fragmento)
Tenho 33 anos e uma gastrite. Amo
a vida
que é cheia de crianças, de flores
e mulheres, a vida,
esse direito de estar no mundo,
ter dois pés e mãos, uma cara
e a fome de tudo, a esperança.
Esse direito de todos
que nenhum ato
institucional ou constitucional
pode cassar ou legar.
Mas quantos amigos presos!
quantos em cárceres escuros
onde a tarde fede a urina e terror.
Outro poeta elucidativo foi Eduardo Alves da Costa, com o lindo poema NO CAMINHO DE MAIAKÓVSKI, que aqui trazemos um trecho muito conhecido na época!
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Houve ainda um poeta importante na resistência à Ditadura Militar: Moacyr Félix, com o seu poema Exilado, um texto épico contra as mortes e exílios num país dilacerado. Vejamos um trecho do poema.
Exilado na morte brasileira
de Herzog ou de Rubem Paiva
ou de José ou de João
que morreram porque
a favor da vida
repetiam o não
na morte dos que morreram
sem saber o por quê
e na morte mas que a morte
dos que pensavam saber
na morte da morte que não chega
da alienação que vive dessas mortes todas. (1977)
Na semana que vem, continuaremos a apresentar mais poetas e uma lista de livros que podem ser lidos para a compreensão do período da Ditadura Militar. Até lá!
Cláudio Guadalupe
Poeta integrante da ADL e do ARTEFERIA
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