COMPOSIÇÃO E IMAGEM NA POESIA: JOÃO CABRAL DE MELO NETO

CLÁUDIO GUADALUPE
Poeta integrante da ADL e do ARTEFERIA
Iniciamos o ano de 2025, nesta coluna, valorizando artistas e poetas de nossa cidade. Isto não significa que deixaremos de tratar da grande poesia, nos autores nacionais e internacionais.
O mês de janeiro tem a presença do nascimento de um dos maiores poetas do país, o diplomata e pernambucano João Cabral de Melo Neto (09/01/1920)
Vamos abaixo ler uma parte da fortuna crítica que literatos realizaram no livro Cadernos da Literatura Brasileira (Instituto Moreira Salles, 1996), para termos a dimensão de João Cabral na nossa poesia.
“Porque se João Cabral ainda usa o verso em seus poemas, o faz não para ‘poetizá-lo’, mas para violentá-lo, para desmistificar, de dentro de si, os seus mitos e a sua linguagem, ou para contradizê-lo a todo o momento, dessacralizando a sua roupagem florida com a linguagem seca da pedra e com a semântica pedregosa do Nordeste” (CAMPOS, Augusto de. Da antiode à antilira”, 1978).
“Cumpre ressaltar ainda que, como traço sistemático de sua poética um sadio espírito de originalidade e de pesquisa, tão presente em toda a sua produção, o que lhe vem emprestando feição própria...” HOUAISS, Antônio. (‘Sobre João Cabral de Melo Neto’, 1976).
“João Cabral é um poeta nitidamente de conteúdo-construção em nossa poesia,
em oposição à poesia de conteúdo-expresso (sem projeto)...” (PIGNATARI, Décio, ‘Situação atual da poesia no Brasil’, 1971.
Um poeta, assim elogiado por vários críticos, só pode ter a nossa reverência e a vontade de conhecer a sua poética, que o levou ao sucesso nos livros O CÃO SEM PLUMAS (1950), MORTE E VIDA SEVERINA, (1954/55), DOIS PARLAMENTOS (1961), A EDUCAÇÃO PELA PEDRA (1966) e outros mais recentes. Uma poética dedicada à construção, à composição, à reelaboração racional de uma poesia com forte teor social, pós-modernista e de alto nível de criatividade, como se faz nas artes plásticas.
MORTE E VIDA SEVERINA (FRAGMENTO)
— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
a do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
TECENDO A MANHÃ
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
CULTIVAR O DESERTO
como um pomar às avessas:
então, nada mais
destila; evapora;
onde foi maçã
resta uma fome
onde foi palavra
(potros ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio.
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