REFLEXÕES POÉTICAS SOBRE O NATAL

Confira a Coluna de Claúdio Guadalupe
A espiritualidade trazida pelo nascimento de Jesus Cristo sempre traz muita poesia! Seja nas relações de irmandade que estabelecemos em nossas famílias e com os semelhantes, ou pela reflexão espiritual, quando buscamos o significado do nascimento do menino Jesus.
Neste quesito, a literatura tem a propriedade de trazer mais emoções e a vivificação do acontecimento mais importante para os cristãos. São famosos os contos natalinos, como em Charles Dickens (Um conto de Natal), em Nikos Kazantzakis (A Última Tentação de Cristo) ou O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramargo. Mas há também os contos brasileiros, com Rubem Braga (Um Conto de Natal), Mário de Andrade (O Peru de Natal), Machado de Assis (Missa de Galo) e Carlos Drummond de Andrade (Presépio). Na poesia, há sempre um maior encantamento com o tema. São clássicos, os poemas de Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Machado de Assis.
Na literatura divinopolitana poderíamos citar dois autores: Adélia Prado e Hugo de Lara. De Adélia Prado, com seus poemas centrados na religiosidade popular, apresento esta pérola.
Lapinha
Quando éramos pobres e eu menina
era assim o Natal em nossa casa:
quatro semanas antes
a palavra ADVENTO sitiava-nos,
domingo após domingo.
Comeríamos melhor naquele dia,
seríamos pouco usuais:
vinho, doces, paciência.
Porque o MENINO estremecia no feno
e nos compadecíamos de Deus até as lágrimas.
Olhando a manjedoura, o que eu sentia
— sem arrimo de palavras —
era o que sinto ainda:
‘O desejo de esbeltez será concretizado.’
À luz que não tolera excessos,
o musgo, a areia, a palha cintilavam,
a pedra. Eu cintilava.
Mas é no livro UM PRESENTE DE NATAL: VERSOS PARA CELEBRAR E REFLETIR (Editora Machado, 2024). de Hugo de Lara, que há a profundidade e criticidade em reflexões humanistas, sobre a festa natalina. Vamos conhecer alguns poemas desse belo livro.
Todo Natal
céu e terra se abraçam.
para que a terra tenha espírito
para que o céu tenha vida
para que o homem tenha deus
para que deus tenha o homem
Hugo de Lara
Ou podemos ler o poema, a seguir, tão brasileiro e tão comovente de Hugo de Lara.
É Natal
e todas as mães se debruçam
sobre seus meninos-jesus
ainda meninos ou já velhos,
sofridos, perdidos ou felizes,
e choram de dor ou de alegria
ou de amor
por seus pequenos santos.
O livro do nosso poeta, Hugo de Lara, possui vários momentos de reflexões sobre o significado da data, desenvolvendo uma poética fraterna, de congraçamento e de comunhão com o povo simples e excluído..
Neste Natal
não haja nossos desejos,
nossas alegrias,
nossas vitórias.
Haja o desejo do outro realizado,
a alegria do outro expressada,
a vitória do outro alcançada.
Neste Natal
haja apenas os outros
em nossas alegrias.
Para encerrar, convoco o nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, com seu poema O QUE FIZERAM DO NATAL.
Natal.
O sino longe toca fino.
Não têm neves, não tem gelos.
Natal.
Já nasceu o deus menino.
As beatas foram ver,
encontraram o coitadinho
(Natal)
mais o boi mais o burrinho
e lá em cima
a estrelinha alumiando
Natal.
As beatas ajoelharam
e adoraram o deus nuzinho
mas as filhas das beatas
e os namorados das filhas,
mais as filhas das beatas
foram dançar black-bottom
nos clubes sem presépio.
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