POESIA NA ARTE POPULAR: A TRÍADE DE ESCULTORES (Parte I)

CLÁUDIO GUADALUPE
Poeta integrante da ADL e do ARTEFERIA
Arte popular, arte primitiva, artesanato, arte ingênua, arte original, arte naif, seja qual for o conceito usado, é maravilhosa a arte advinda das tradições, dos costumes, do folclore, sob uma perspectiva popular.
Sempre houve aqui, na cidade do Divino, legítimos fazedores da arte popular como o renomado Geraldo Teles de Oliveira - GTO (escultor), Gê Guevara (Pintora naif), Sr. Lula (Violeiro e declamador), Seu Jadir João (Escultura), José Adão (Escultor), Geraldo Fernandes de Oliveira – GFO (escultor), Mário Teles de Oliveira (escultor), Edésio (miniaturista), Israel Gomes (escritor), Geraldo Menino (Grupo de seresta de Paivas), João Bejo (Congadeiro), José Alves (Teatro Bíblico Nova Jerusalém) e muitos outros, aqui não citados.
Na linha da arte popular é notável a tríade GTO, Mário Teles e Alex Pereira - TELES. Vamos hoje valorizar o jovem Alex Teles, pouco reconhecido em nossa cidade, mas que é um poeta da escultura, premiado em vários países. Inicio a matéria com um poema de nossa autoria, dedicado a ele. E depois vamos à entrevista.
MADEIRA POEMA
Cláudio Guadalupe
Como pode o artista
deixar em fogo brando
a força de seu entalhe
Como se faz poeta
assumir em versos
o traço que não lhe foge
Como pode ser cantor
solfejar a justiça doce
na escultura, o acorde?
Poeta
na madeira tece
sortes, formas
e feras por suporte
Poeta
como quem guarda
na memória retorcida
o pai, o avô
e os congadeiros pobres
Poeta
como quem trança
alucina em artesanato
mãos, pés, tambores e foles
Poeta
De quem resulta
pelas antigas mãos
a madeira poema
homens, mulheres e criaturas
Como pode o escultor
ser farto de tristezas
na peça nua que ele acolhe
Quem pode ser escultor
fazer versos nos rasgos
de formões que nele rói
Quem pode por escultor
ter como harmonia solo
os contornos das rodas da vida
alegorias da morte?
O OLHO VIVO
P - Alex Teles, como você iniciou o desejo pela escultura?
R - Eu acredito que o processo iniciou - se
no meu primeiro ano.
Meu avô (GTO), ao fazer
as peças, me narrava
as personagens saídas da
madeira. Dizia: “vai
nascer um índio, uma
flecha”. E ele dizia que
eu acompanhava com
os olhos, a sua inspiração, na batida das lascas. Fui crescendo e havia também o lado lúdico. Eu sempre gostava dos brinquedos como os Comandos em Ação, playmobil, o Forte Apache. E meu pai, Mário Teles, dizia que tinha o olho vivo, observando sempre o trabalho deles.
P - Como você acompanhou o trabalho de seu avô e seu pai?
R - Enquanto o meu avô (GTO) fazia ludi-
camente os personagens nas madeiras, com meu pai, tinha outra perspectiva. Lá perto de casa, tinha a Folia de Reis dos vizinhos, as brincadeiras populares nas Festas Juninas (Pau-de-sebo, pular a fogueira). Isso tudo se juntava, fazia parte da nossa vida. Quando acabava as suas obras, ele as registrava em fotos e eu ficava doidinho para ver as fotos.
3 - Quando nasceu então a necessidade de produzir arte?
R - Na minha adolescência, com a paixão pelas fotos em preto e branco, iniciei minha formação em cinema, com o Bergmam, Hitchcock, Kurosawa, Chaplin e outros cineastas. O cinema puxou outra paixão: a poesia. Como não tinha dinheiro para comprar livros, ia para a Biblioteca Municipal Ataliba Lago.
Com o meu pai, tive contato com os pintores Heraldo Alvim, Celeste Brandão, Petrônio Bax. Aí eu conheci o Frei Stanislaw e ia para a biblioteca dos franciscanos. Deste “bololô” é que começo a formular as imagens das minhas peças. Na prática da arte de esculpir, houve, é claro, a aprendizagem com o avô e meu pai.
CLÁUDIO GUADALUPE
Poeta integrante da ADL e do ARTEFERIA
POESIA DA ARTE POPULAR: O SALTO DE ALEX TELES (Parte II)
Na semana passada iniciamos a conversa com o poeta da madeira Alex Teles. Hoje vamos seguir, mostrando as suas conquistas e o reconhecimento como artista, no Brasil e no mundo.
P – Qual foi a sua primeira peça?
R – Eu criei a minha “Roda da História” como fazia meu pai. As nossas histórias se encontraram e tive a primeira exposição, organizada pelo Capitão Farias e Sônia Terra (Jornal AGORA). Apresentei lá, três peças, e a peça “O Salto”, batizada pela Sônia, foi comprada pelas Organizações Globo e ela apareceu na novela “Em nome do amor”. Depois esta peça foi incluída no Centro de Referência da Arte Popular - CRAB (Rio de Janeiro), onde ela ficou ao lado de peças do meu avô e pai. Era a concretização da trindade, que meu avô sonhou!
E há também o meu amigo Faber Clayton Barbosa, que se tornou meu “irmãozinho” e me apoiou muito.
P - A partir da I exposição, como a carreira se desenvolveu?
R - Após aquele início, os críticos de arte, os governos estaduais, passaram a me convidar e, viajando, passei a conhecer a realidade artística do País. Eu, com 40 anos, passei a conviver com artistas renomados, mais velhos, em várias exposições de arte popular. Desta explosão pelo país, a roda sai e começa então a ser referência na Europa (Bélgica, Espanha, Portugal, Itália e Reno Unido). Daí, passei a expor na América Latina, em Peru, Equador, Chile, onde os
artistas se identificam com minhas obras.
Depois vieram os frutos, o reconhecimento e os prêmios, junto ao meu pai e avô. Acho importante projetar minha cidade, Divinópolis, no País e no mundo. Fui premiado como “Artista Revelação” (São Paulo/2016); no “Artes dos Mestres” (São Paulo/2023), no certame “Top 100 do Artesanato Brasileiro”(Rio de Janeiro/2022). Nestes 10 anos de arte, obtive 47 prêmios e menções honrosas. Recentemente, tive o orgulho de ter a única peça, como referência da arte brasileira, no Encontro do G20 (RJ/2024). A minha peça “Roda do Tempo” está na Embaixada brasileira na Bélgica, e, tenho hoje, obras em 192 países.
P - E em Divinópolis? Como você é reconhecido?
R - Eu, de alguma forma, fico triste em saber que a expressão “santo de casa não faz milagre” é real. Gostaria muito que o povo
se mirasse para dentro e valorizasse a arte nossa, de nossa cidade.
Quando aqui criamos o Museu GTO, tinha o sentido de passar a arte para as crianças, para que reconhecessem os seus artistas.
Mas voltando à poesia, os netos de Carlos Drummond de Andrade sempre contam que seu pai, falava muito de meu avô. Ele passava pela cidade, quando ia para Itabira, ficando na casa do vovô. Os netos do Mestre Vitalino (Pernambuco) e da Dona Izabel (Vale do Jequitinhonha) sempre falam de nossa arte. É um encontro entre eles e eu, GTO e Mário Teles.
Enquanto parte do País valoriza a nossa arte popular, em nosso Estado e cidade, pouco se valoriza artistas como GTO, Adélia Prado e outros. Temos que ter muita resiliência para produzimos e continuarmos a vida.
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