Carregando clima…
Política

Absurdo e vergonhoso

Absurdo e vergonhoso

A divulgação dos valores do Fundo Eleitoral para as eleições de 2026 reacende um debate que há anos incomoda grande parte da população brasileira: afinal, quais são as verdadeiras prioridades do Estado? Enquanto milhões de brasileiros enfrentam filas intermináveis nos hospitais, convivem com escolas carentes de estrutura, sofrem com a insegurança nas ruas e pagam uma das maiores cargas tributárias do mundo, os partidos políticos receberão quase R$ 5 bilhões em recursos públicos para financiar campanhas eleitorais. O valor impressiona não apenas pela magnitude, mas pelo contraste com a realidade vivida diariamente por quem depende dos serviços públicos. Em um país onde faltam medicamentos em unidades de saúde, onde crianças estudam em escolas sem condições adequadas e onde comunidades inteiras clamam por mais segurança, destinar uma quantia bilionária para propaganda política parece, no mínimo, um sinal de desconexão entre Brasília e a vida real dos brasileiros. É para rir ou para chorar? Os dois. Depende de como cada um absorve a aberração.  

Uso indevido

O que torna a situação ainda mais difícil de justificar é o contexto de descrédito que cerca boa parte da classe política. O país foi palco, nos últimos anos, de sucessivos escândalos envolvendo corrupção, uso indevido de recursos públicos, emendas parlamentares sem transparência e privilégios que continuam distantes da realidade da população. Mesmo assim, o sistema político segue encontrando meios para ampliar ou manter recursos destinados à própria sobrevivência eleitoral. Os números divulgados mostram que apenas três partidos — PL, PT e União Brasil — concentram cerca de 40% de todo o montante distribuído. São centenas de milhões de reais que serão utilizados em estratégias de campanha, marketing, produção de conteúdo, deslocamentos e estruturas eleitorais, enquanto o cidadão comum continua aguardando investimentos que poderiam impactar diretamente sua qualidade de vida. Lamentavelmente explica porque tanta gente se candidata.

Jogo de interesse

É evidente que a democracia tem custos e que a proibição das doações empresariais exigiu novas formas de financiamento das campanhas. Contudo, isso não elimina o direito da sociedade de questionar se o volume de recursos destinado aos partidos é compatível com a realidade econômica do país. O problema não está apenas na existência do fundo, mas em sua dimensão. Em tempos de contenção fiscal, de arrecadação recorde e de constantes discursos sobre a necessidade de equilíbrio das contas públicas, parece contraditório que sempre haja dinheiro disponível quando o assunto é financiar a política. O brasileiro que enfrenta dificuldades para conseguir uma consulta especializada, que vê seu filho estudar em condições precárias ou que teme a violência ao sair de casa tem razões legítimas para se perguntar se suas necessidades ocupam, de fato, o centro das decisões nacionais. Alguém ainda tem dúvida?

E as prioridades?

Ah, isso sempre deixa a desejar e fica para depois. O episódio reforça uma percepção cada vez mais presente na sociedade: a de que o sistema político brasileiro foi estruturado para proteger a si mesmo antes de atender aos interesses da população. Quando bilhões são reservados para campanhas eleitorais enquanto persistem carências históricas em áreas essenciais, a mensagem transmitida é preocupante. Mais do que um debate sobre números, trata-se de uma discussão sobre prioridades. E, diante de tantas mazelas ainda presentes na saúde, na educação, na segurança pública e na infraestrutura, é difícil convencer o contribuinte de que quase R$ 5 bilhões para a política representam a melhor aplicação possível dos recursos que saem do seu bolso. Ou melhor: impossível.

Pura irresponsabilidade

E não pense que os gastos param por aí. É uma porretada atrás da outra para ferrar com o povo. Poucas horas após o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União), defender cautela com propostas de impacto fiscal, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) aprovou nesta quarta-feira, 10, uma PEC que amplia benefícios previdenciários para agentes comunitários de saúde e de combate às endemias. Segundo estimativas do governo, a medida pode gerar impacto de cerca de R$ 30 bilhões em dez anos. Não porque os profissionais não mereçam, mas o momento que não é adequado. A votação ocorreu mesmo depois de Alcolumbre afirmar, em plenário, que o Congresso precisa evitar a aprovação em série de propostas que criam despesas permanentes para a União, estados e municípios, além de que a Casa não pode atender apenas uma classe profissional. Mas, como não sai do bolso deles, a população e os governantes “que se virem nos 30”. De praxe!

Compartilhe:WhatsAppFacebookTwitter

Comentários

Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.

Carregando comentários…