Ambulatórios e compra de leitos: Prefeitura anuncia medidas para combater caos na saúde

Bruno Bueno
Divinópolis viveu no último fim de semana um dos capítulos mais tristes de sua história. A série de problemas na área da Saúde causou revolta. A morte de uma criança de apenas quatro anos na UPA gerou enorme comoção. Outras várias foram transferidas para hospitais da região e outros locais do Estado.
O caos gerou um pacote de medidas da Prefeitura. Elas foram anunciadas em coletiva na manhã de ontem.
Leitos
A principal medida está na compra de 14 leitos infantis do Complexo de Saúde São João de Deus (CSSJD). São 12 na área de enfermaria e dois no CTI. Quatro destes leitos já foram liberados. A contratação tem o período de 60 dias e vai custar R$ 1,1 milhão aos cofres públicos da Prefeitura.
Os leitos vão atender pacientes somente de Divinópolis. A secretária de Saúde, Sheila Salvino, explicou o processo de contratação.
— Acionamos todos os hospitais na sexta-feira, principalmente os três da rede privada. O Santa Mônica e o Santa Lúcia tinham leitos, mas não possuíam vagas. O São Judas Tadeu, por sua vez, não tinha clínica pediátrica — salientou.
A solução veio do São João de Deus, o qual nós também procuramos no mesmo dia.
— Nos informaram sobre um arranjo para criar leitos pediátricos. O pedido foi feito na sexta à noite e concluído no domingo — pontuou.
As transferências da UPA para o São João de Deus começaram na tarde de ontem. A primeira paciente a ser levada foi uma criança de quatro anos.
Ambulatório
Além disso, dois novos ambulatórios vão atender pacientes com doenças respiratórias e suspeita de dengue. O objetivo é desafogar a UPA.
O atendimento de adultos será realizado no bairro Afonso Pena, no atual ambulatório de pacientes com sintomas de dengue. Já o atendimento de crianças será realizado na Policlínica.
Ambos vão funcionar sete dias por semana, de 07h às 19h. A expectativa é que os dois novos ambulatórios abram as portas no dia 6 deste mês, próxima segunda-feira.
— Os pacientes devem procurar os ambulatórios antes da UPA — explicou a vice-prefeita, Janete Aparecida.
UPA
Janete ressaltou que a UPA não é um hospital e, por isso, não deveria receber internações.
— O problema da unidade não é a entrada, nós vamos atender todos. A questão é a saída, porque elas precisam ser transferidas para outros locais — salientou.
A vice-prefeita destacou outras ações que serão feitas pelo Município.
— Vamos intensificar a campanha de vacinação contra a gripe e começar a da dengue quando os imunizantes chegarem. Além disso, iremos aumentar a fiscalização de posturas em lotes particulares e limpar os públicos — pontua.
Contratação
A diretora técnica da UPA Padre Roberto, Ludmilla Pizzigatti, informou que a unidade está com falta de médicos pediatras.
— Nós procuramos profissionais, mas não temos no mercado. Não é falta de dinheiro — explica.
Ludmilla explicou que a maioria dos médicos convivem com ameaças diárias e não queriam trabalhar ontem por medo.
— Nenhum médico acorda de manhã pensando em matar alguém. Infelizmente, é natural que pessoas morram na UPA. Um paciente já quis jogar uma cadeira em mim. Um médico teve o carro amassado por outro. É necessário que a população tenha compreensão — comentou.
Atualmente, 84 profissionais médicos atendem na unidade. 17% deles têm menos de formação, segundo a diretora. O Conselho Regional de Medicina (CRM) acionou a UPA após as ameaças.
Relembre
A situação começou na última quinta-feira. O Instituto Brasileiro de Políticas Públicas (Ibrapp) anunciou que a taxa de ocupação de leitos infantis ultrapassou 300%. Além disso, 21 crianças aguardavam vaga hospitalar e outras cinco estavam em observação.
A unidade é a única porta aberta via Sistema Único de Saúde (SUS) que tem atendimento pediátrico no município.
Morte
A situação se tornou ainda mais caótica quando Thallya Beatriz, de apenas quatro anos, morreu na UPA na última sexta-feira. A Prefeitura informou que ela teve um quadro convulsivo. No entanto, a família da menina contesta a versão.
Uma sindicância foi aberta pela Prefeitura para apurar a situação.
Caso Thallya
Sobre a morte da criança de quatro anos, a diretora acredita não haver falhas no processo.
— Vamos aguardar a sindicância. Porém, na minha opinião como diretora, não houve falhas. O atendimento foi rápido, foi oportuno, mas o desfecho não foi o que a gente gostaria que acontecesse — comenta Ludmilla Pizzigatti, diretora-técnica da UPA.
Uma sindicância foi aberta pela Prefeitura para apurar a situação.
— O atendimento foi rápido, foi oportuno, mas o desfecho não foi o que a gente gostaria que acontecesse — comenta Ludmilla Pizzigatti.
Rotina
Ludmilla ressaltou que casos como Thallya fazem parte da rotina.
— Para quem trabalha em serviço de urgência e emergência, isso é uma situação corriqueira, porque o nosso volume de atendimento é grande, é alto. Volto a frisar, não é o esperado, não é o que a gente quer, mas pode vir a acontecer sim — esclarece.
A diretora detalhou todo o cronograma de atendimento da criança
— Ela teve um primeiro atendimento na quarta onde ela foi diagnosticada com um quadro de doença respiratória indeterminada em evolução. Foi orientada pela médica e prescrita com antibiótico. Avisamos a família para retornar em caso de agravamento e assim foi feito na sexta. Ela chegou com sinais de gravidade e acabou culminando com uma parada cardiorrespiratória que foi irreversível — detalha.
A principal hipótese é que Thallya tenha desenvolvido um quadro de doença bacteriana.
— Nos solidarizamos com a família. Não faltou recurso para essa criança. Tentamos reanimá-la e sua morte não teve haver com as transferências realizadas — pontua.
Reunião
No sábado, a Prefeitura realizou uma reunião extraordinária de saúde com a presença virtual do secretário de Estado de Saúde, Fábio Baccheretti. Ele garantiu o envio de recursos para compra de leitos pediátricos extras.
Durante a reunião, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) cobrou de Fábio, que garantiu o apoio das transferências das crianças para outros hospitais.
Transferências
As transferências foram realizadas durante o fim de semana por meio do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). Uma das crianças foi levada para Araguari, Triângulo Mineiro pelo Suporte Aéreo Avançado de Vida (SAAV).
Outra criança foi transferida para o Hospital João XXIII. No domingo, um bebê também foi levado para Araguari. Outra criança, desta vez de 10 anos, foi transferida para Formiga. Uma mulher de 51 anos, com pneumonia, foi levada para Montes Claros, no Norte de Minas.
Apelo
O prefeito Gleidson Azevedo (Novo), fez um apelo aos políticos da região.
— Eu faço um apelo a todos: não é momento de fazer política. Que os pré-candidatos possam ter humanidade. Falaram até de criar uma nova UPA. Você não constrói uma unidade em dois meses. Parem de covardia — explica.
Minutos depois do pedido, ele fez um anúncio na mesma coletiva.
— Eu sou pré-candidato a prefeito de Divinópolis. Eles vão ter que me aguentar — contou.
Conselho e Comissão
O presidente do Conselho Municipal de Saúde (CMS), Guilherme Lacerda, participou da reunião e disse que a pasta irá fiscalizar o trabalho da Semusa.
— Estamos felizes com o plano de ação e queremos agradecer a Prefeitura e ao São João de Deus. O Conselho trabalha para que a Ibrapp cumpra o contrato. A empresa precisa criar um plano para ajudar na contratação de profissionais — pontua.
Zé Braz (PL) que é presidente da Comissão de Saúde da Câmara e cobrou atuação dos vereadores.
— Cada vereador tem direito a R$ 1,2 milhão de emenda impositiva. Se cada um destinar R$ 100 mil, nós conseguimos manter os leitos por mais 60 dias. Eu mesmo posso abrir mão da emenda para comprar leitos. Precisamos somar forças — reitera.
Dengue
Vacinas contra a dengue para Divinópolis e região foram anunciadas nesta semana pelo Ministério da Saúde. A vacinação chegará em mais de 625 municípios e em 6 estados.
De acordo com a listagem, Divinópolis, Itapecerica, Perdigão, Carmo do Cajuru, Araújos, Cláudio, São Gonçalo do Pará e São Sebastião do Pará receberão doses do imunizante.
Para Divinópolis, serão ofertadas 12.729 doses.
Reunião
Representantes da Secretaria Municipal de Saúde (Semusa) participaram ontem de uma reunião na Superintendência Regional de Saúde para tratativas relacionadas aos leitos hospitalares na clínica pediátrica na macrorregião Oeste.
— Foram alinhadas abordagens de sensibilização dos demais municípios da macrorregião no sentido de ampliar os leitos de pediatria — comentou.
Olho: “ Os pacientes devem procurar os ambulatórios antes da UPA”
- Janete Aparecida, vice-prefeita
Foto: Bruno Bueno/JA
Legenda: Situação foi explicada em coletiva na manhã de ontem
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