Cleitinho promete diálogo sobre fogos de artifício após polêmica

Lucas Maciel
A virada do ano, tradicionalmente marcada por celebrações e fogos de artifício, acabou se transformando em um ponto de tensão política, social e econômica na região. Um vídeo publicado pelo senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), no qual defende a proibição nacional dos fogos de artifício com barulho, teve forte repercussão nas redes sociais e provocou reações imediatas em Santo Antônio do Monte, município reconhecido como polo mundial da indústria pirotécnica.
O conteúdo, divulgado como um apelo social em defesa de animais e pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), rapidamente ultrapassou o ambiente digital e alcançou o setor produtivo, sindicatos, autoridades municipais e representantes técnicos.
O vídeo reacendeu um debate antigo: como conciliar inclusão, saúde pública e bem-estar animal com a preservação de uma atividade econômica que sustenta milhares de famílias?
Debate
No vídeo, gravado em tom reflexivo, Cleitinho utiliza o simbolismo do Réveillon para provocar o público. Ele afirma que optou por não soltar fogos e convida as pessoas a pensarem sobre os efeitos reais da prática.
— Eu não vou soltar esse foguete aqui não, mas quero deixar essa reflexão pra você que já soltou esse foguete e depois o barulho. O que mudou na sua vida? Eu acredito que não mudou nada, mas na vida dessa pessoa mudou. Ela perdeu um cachorro por causa disso aqui — disse.
Ao longo da gravação, o senador amplia o argumento e associa o barulho dos fogos a crises sensoriais em crianças autistas, citando relatos de pais e responsáveis. Em seguida, anuncia a intenção de levar o tema ao Congresso Nacional.
— Pergunta pra um pai, pra uma mãe que tem um filho autista, quando solta esse barulho de foguete aqui, o que acontece com essa criança? Então eu tô entrando com um projeto de lei aqui, nacional, para proibir fogos de artifício em todo o Brasil. Que fique só fogos visuais — afirmou.
Reação imediata
A fala teve grande repercussão e encontrou forte resistência em Santo Antônio do Monte, cidade que concentra dezenas de indústrias, um arranjo produtivo consolidado e milhares de empregos diretos e indiretos, formando a base econômica local há mais de um século.
Representantes do setor afirmam que a declaração, feita de forma ampla, gerou apreensão entre trabalhadores e empresários, especialmente pela ideia de uma proibição nacional.
O Agora conversou com o coordenador da Aliança Brasileira da Pirotecnia, Guilherme Santos, que avalia que o vídeo reforçou uma percepção equivocada sobre o funcionamento da atividade.
— O setor foi surpreendido porque o vídeo sugere uma proibição total dos fogos de artifício, sem considerar que o Brasil é o segundo maior produtor mundial e que Santo Antônio do Monte abriga um polo pirotécnico internacional, que é motivo de orgulho para a região — afirmou.
Guilherme explica que não existem fogos completamente silenciosos e que o som é consequência inevitável das reações químicas envolvidas.
— Criou-se no Brasil o mito de que existem fogos sem barulho, sem ruído ou silenciosos. Isso não existe. Qualquer artefato pirotécnico vai emitir algum tipo de som, a depender do efeito desejado. Até os chamados fogos visuais produzem ruído — disse.
Diálogo
Com o aumento da repercussão negativa, especialmente em Minas Gerais, o debate avançou para uma nova etapa. Segundo o coordenador, o próprio senador Cleitinho entrou em contato com ele após as manifestações do setor, sinalizando disposição para o diálogo.
— O senador me ligou pessoalmente para se explicar. Disse que não era intenção dele prejudicar ninguém e que não faria nenhum movimento sem conversar com o setor, sem entender a fundo a questão e sem buscar um equilíbrio — relatou.
Ainda segundo Guilherme, ficou pré-agendada uma reunião para a primeira semana de fevereiro, na qual representantes da indústria devem apresentar dados técnicos, impactos econômicos e experiências internacionais de regulamentação.
— Ele reconheceu que o tema é mais complexo do que parece e que não dá para simplificar algo que envolve uma cadeia econômica inteira, com milhares de empregos e mais de 150 anos de história — completou.
O Agora também entrou em contato com Cleitinho, que confirmou não haver projeto protocolado e que o debate ainda está em construção.
— Eu falei sobre o barulho, não sobre acabar com os fogos. Não vou protocolar nada sem conversar com todos os setores e achar um equilíbrio que não atrapalhe nenhuma empresa e, ao mesmo tempo, reduza o impacto do ruído para autistas, idosos e animais — escreveu o senador.
Acompanhamento
Em Santo Antônio do Monte, a Prefeitura acompanha o tema de perto. Em nota enviada ao Agora, o prefeito Leonardo Camilo (PSD) destacou que o município tem atuado nacionalmente para defender a indústria pirotécnica, sem ignorar a necessidade de evolução e responsabilidade social.
— Santo Antônio do Monte produz fogos há mais de 100 anos. Hoje somos o maior produtor da América Latina e o segundo maior do mundo. São mais de 40 indústrias em atividade, gerando emprego e renda para milhares de famílias — afirmou.
O prefeito lembrou que já participou de debates no Senado sobre projetos semelhantes e alertou para os riscos de uma proibição ampla.
— Acabar com a indústria formal não elimina os fogos. Pelo contrário, empurra a atividade para a clandestinidade, sem controle, sem segurança e sem fiscalização. Isso é extremamente perigoso — disse.
Segundo ele, o município defende uma legislação federal clara, técnica e equilibrada.
— O que nós defendemos é uma regulamentação responsável, com critérios técnicos, como acontece na Europa. Isso dá segurança jurídica aos empresários, preserva empregos e permite avançar em soluções que respeitem as pessoas com autismo, os animais e a convivência social — completou.
Mais posicionamentos
O debate também chegou à Câmara Municipal. A reportagem ouviu o vereador Tõezinho Mecânico (Republicanos), que comentou a repercussão do vídeo e ressaltou o peso histórico, social e econômico da pirotecnia para Santo Antônio do Monte. Segundo ele, o tema precisa ser tratado com responsabilidade e sem decisões precipitadas.
— A preocupação com o bem-estar das pessoas e dos animais é legítima, mas não se pode ignorar que milhares de famílias vivem diretamente dessa atividade. Qualquer decisão precisa considerar os dois lados — afirmou.
O parlamentar defendeu que o caminho seja o diálogo entre o Congresso Nacional, o setor produtivo e os municípios afetados, com base em dados técnicos e impactos reais.
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