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Política

Realidade paralela

Realidade paralela

A política brasileira segue dando sinais claros de distanciamento da realidade vivida pela maioria da população. Nesta semana, o Congresso aprovou o Orçamento de 2026 prevendo R$ 61 bilhões em emendas parlamentares, um valor que, por si só, já causa espanto. Mais do que isso, o texto determina que mais da metade dessas emendas deverá ser paga até o fim do primeiro semestre, antecipando recursos em um calendário nada ingênuo. O contexto ajuda a explicar. 2026 é ano eleitoral, e o interesse de parlamentares federais e estaduais em fortalecer suas bases cresce exponencialmente. As emendas se transformam em vitrines políticas, instrumentos de visibilidade e, muitas vezes, moedas de troca eleitoral. O problema é que, enquanto bilhões circulam nos gabinetes e acordos de Brasília, o país segue enfrentando graves problemas estruturais, sociais e econômicos: saúde precarizada, educação com déficits históricos, insegurança alimentar e desigualdades profundas. Para efeito de comparação, costumamos tratar o prêmio de R$ 1 bilhão da Mega da Virada como algo quase inimaginável. Agora, multiplique esse valor por 61. É exatamente isso que está em jogo no Orçamento. A pergunta que fica é inevitável: esse volume de recursos reflete as prioridades reais do Brasil? Ou confirma que parte da política nacional opera em uma realidade paralela, alheia à urgência das ruas?

Novela que não acaba

Se no plano nacional o excesso salta aos olhos, em Minas Gerais o problema é o oposto: a demora injustificável. O Governo do Estado prevê a sanção do projeto relacionado ao Hospital Regional de Divinópolis apenas para 12 de janeiro, informação repassada pela vice-governadoria ao deputado Eduardo Azevedo. O Executivo alega que o prazo conta a partir do recebimento do texto, mas o argumento perde força quando se observa que outros projetos aprovados depois já foram sancionados. Até agora, o governador Romeu Zema não sancionou a transferência do Hospital Regional de Divinópolis para a UFSJ, passo essencial para dar início aos trâmites de funcionamento de uma estrutura praticamente pronta. Trata-se de um hospital aguardado há 15 anos pela população do Centro-Oeste mineiro, que segue penalizada pela lentidão política. O contraste é revelador. Enquanto bilhões são acelerados quando o interesse é eleitoral, um hospital fundamental para salvar vidas segue travado na burocracia e na falta de prioridade. No fim das contas, o recado que fica é duro: sobra agilidade para o que rende voto e falta compromisso com o que garante dignidade. E quem paga essa conta, mais uma vez, é a população.

Chegou a hora

A virada do ano nunca é apenas simbólica na política. Ela funciona como um marco silencioso de rearranjos, quando discursos públicos ainda falam em balanços e esperança, mas, nos bastidores, as articulações para a eleição seguinte já ganham forma concreta. Com 2026 no horizonte, o calendário virou e, com ele, virou também a lógica do jogo: quem não se movimentar agora corre o risco de ficar fora do tabuleiro. Em Minas Gerais, esse movimento é cada vez mais evidente. O vice-governador Mateus Simões (PSD) segue empenhado em unificar a centro-direita em torno de seu nome, tentando se apresentar como herdeiro político e opção de continuidade administrativa. A estratégia passa por ampliar pontes, reduzir resistências internas e ocupar espaços antes que outros o façam. Do outro lado, a esquerda vive um momento de expectativa e indefinição. Há uma torcida clara para que o senador e ex-presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD), aceite o desafio de disputar o Governo de Minas, com o apoio direto do presidente Lula (PT). Caso isso não se concretize, o campo progressista se vê diante de uma escassez de nomes competitivos, restando como alternativa mais viável o apoio a uma eventual candidatura de Alexandre Kalil (PDT). No campo conservador, outro movimento chama atenção. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL) aparenta ter mesmo desistido da disputa pelo Executivo estadual. O gesto ficou ainda mais evidente após aparecer em gravações ao lado de Simões, sinalizando alinhamento político e encerrando especulações. Com isso, a incógnita passa a ser o senador Cleitinho (Republicanos) que, sem Nikolas no páreo, automaticamente desponta como favorito. Enquanto isso, o atual governador Romeu Zema (Novo) deve seguir outro caminho: afastar-se do cargo para integrar uma chapa na disputa pela Presidência da República, ampliando seu projeto político para além das fronteiras mineiras. No cenário regional, Divinópolis também entra no radar de 2026. A deputada Lohanna (PV) deve disputar uma vaga na Câmara Federal. O deputado Eduardo Azevedo (PL) tende a buscar a reeleição, enquanto o prefeito Gleidson Azevedo (Novo) já se movimenta para tentar uma cadeira em Brasília. O deputado federal Domingos Sávio (PL), por sua vez, está cada vez mais próximo de concretizar o desejo de disputar uma das duas vagas ao Senado por Minas. Outro nome que já se colocou no jogo é Vitor Costa (PT), que confirmou pré-candidatura a deputado estadual com o apoio da secretária nacional de Finanças do PT, Gleide Andrade, que também deve concorrer a uma vaga na Câmara Federal. A virada do ano, portanto, não representa descanso para a política — representa largada. É agora que alianças são costuradas, desistências são consolidadas e favoritismos começam a se desenhar. Em 2026, o eleitor verá apenas o desfecho. Mas o roteiro, como sempre, começa a ser escrito muito antes do primeiro voto.

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