Deputados aprovam projeto, derrubam emendas e reajuste dos servidores será de apenas 4,62%

Matheus Augusto
Após críticas, vaias e discussões, os deputados estaduais aprovaram, em definitivo, o reajuste de 4,62% aos servidores - retroativo a janeiro deste ano. As tentativas de aumentar o percentual foram frustradas e, no fim, a única conquista foi o aumento de 1% a mais concedido pelo governador Romeu Zema (Novo) em resposta às pressões. Inicialmente, o projeto original previa apenas 3,62%.
Todas as 11 emendas foram rejeitadas. Tanto Eduardo Azevedo (PL) quanto Lohanna (PV) votaram favoráveis às propostas para aumentar a recomposição dos servidores.
Retaliação à
própria base
A reunião extraordinária começou com manifestações de solidariedade à deputada Chiara Biondini (PP). Reportagem publicada pelo jornal o Tempo cita que o governador exonerou servidores próximos à parlamentar, considerada da base, após ela se posicionar favorável às emendas.
O líder do Bloco Democracia e Luta, Ulysses Gomes (PT), expressou repúdio à postura de Zema.
— Um governo que não dialoga — afirmou.
O deputado Sargento Rodrigues (PL) ressaltou o respeito pelo posicionamento independente da parlamentar, sem ceder à pressão governista.
Bella Gonçalves (Psol) aproveitou a oportunidade para parabenizar os servidores pela mobilização e criticar o governador.
— Um governador que vai receber um dos maiores salários do Brasil e que quer dar um reajuste de miséria — lamentou.
Para Caporezzo (PL), o ato expõe a “verdadeira cara de velha política”.
— Bastou ela divergir, uma única vez, para votar pela Segurança Pública, para todas as nomeações dela serem exoneradas. Que parceria é essa? — questionou.
Já Chiara garantiu manter seu posicionamento em apoio aos profissionais do Estado.
— Não tem retaliação que vai mudar meu voto — ressaltou.
O também deputado da oposição, Cristiano Silveira (PT), expressou sua solidariedade.
— Agora, o governo chegou a um novo nível: (...) a perseguição e a retaliação — criticou.
Segundo ele, o tema deixou de ser uma discussão sobre pontos de vista para se tornar um “ataque ao Legislativo”. Em seu 3º mandato, contou jamais ter presenciado situação similar e defendeu a união entre os parlamentares.
— Quem será o próximo a ter sua liberdade legislativa sequestrada? — refletiu.
O deputado Bruno Engler (PL) fez coro à fala dos colegas, citando que a parlamentar, em 95% dos casos, vota favoravelmente ao governo.
— Uma tentativa de intimidação e chantagem. (...) Isso é inadmissível — lamentou.
Discussão
Uma das vozes mais ativas sobre o reajuste dos servidores, Sargento Rodrigues iniciou a discussão do tema classificando o percentual oferecido pelo governador como “migalhas”. O deputado também criticou os colegas contrários às emendas para aumentar o índice.
Segundo ele, no final das contas, os servidores correm o risco de ganhar menos do que antes. Em um exemplo, mencionou o salário de R$ 4.200,00 pago a um soldado. Com o reajuste de 4,62%, o ganho será de 194,04. Entretanto, tramita na ALMG a proposta para aumentar a contribuição ao Instituto de Previdência dos Servidores Militares do Estado de Minas Gerais (IPSM). Com o pagamento de 5,5%, seria descontado R$ 241,67. Com isso, o profissional terminaria com salário final de R$ 4.152,37.
— Não é possível que os senhores não tenham sensibilidade — cobrou.
Rodrigues voltou a defender a recomposição mínima de 10,67%, referente à inflação dos últimos dois anos.
— Os senhores votaram de forma tranquila os 298% [do reajuste do governador, vice e secretários] — comparou.
Reforçou, ainda, que a emenda é apenas autorizativa, ou seja, não obriga Zema a conceder o aumento, dada a competência privativa do Executivo sobre o assunto.
— O governador vai vetar? Deixa vetar — afirmou.
Criticado pelo parlamentar, Alencar da Silveira Jr (PDT) citou que, por sua experiência, seria natural o veto às emendas. E, caso o veto fosse derrubado pela Assembleia, o governador judicializaria a questão. Por isso, seu voto contrário.
— Se ele [Zema] pagar, eu renuncio ao meu mandato. Agora se ele não pagar, você renuncia — afirmou Alencar, desafiando Rodrigues.
O ex-presidente do América não se abalou com as vaias recebidas ao fim de seu pronunciamento.
— Vai igual essa eu tomei quando meu time estava caindo para a Série B — ironizou.
Em continuidade a seu discurso, Sargento Rodrigues leu a transcrição de um áudio enviado por um delegado da Polícia Civil (PC), com atuação no interior do estado, há 17 anos no cargo.
— Relato sincero de quem está na ponta. (...) Muitos colegas ainda não entenderam a gravidade do que o governo está fazendo — antecipou o deputado.
O policial civil narra a desmotivação dos profissionais
— Hoje, o que a gente vê são policiais civis cumprindo o básico do básico — pontuou.
Dentre as consequências, a falta de iniciativa de “sair para a rua e investigar” e a queda na quantidade de ocorrências.
— São operações para ‘inglês ver’. (...) Blitz que não pega ninguém, apenas para mostrar estatística — definiu Rodrigues.
Ao deputado, o delegado afirmou que a aprovação do percentual proposto pelo governador manterá a categoria desmotivada, trabalhando apenas na “estrita legalidade vai continuar”.
— Não adianta entregar viatura 0 km, arma moderna, se os policiais não estiverem motivados — lamentou.
O reflexo futuro poderia ser, inclusive, o aumento da criminalidade.
— Isso, infelizmente, pode ser irreversível — concluiu Rodrigues, ao terminar a leitura da transcrição do áudio do delegado.
Professor Cleiton (PV) lamentou a “frieza” do governador e sugeriu o uso do lucro líquido das estatais para custear o salário dos servidores.
— Você já foi reeleito. Os deputados da sua base, não — ponderou.
Lucas Lasmar (Rede) reconheceu a necessidade de austeridade fiscal, mas apontou o reajuste como irrisório.
— Não dá um saco de arroz — refletiu.
Para Cristiano Silveira (PT), os deputados devem obediência aos eleitores, não ao governador.
— Todos nós tivemos votos de servidores — relembrou.
Do mesmo partido, Beatriz Cerqueira mencionou o desgaste provocado pelo projeto entre os servidores, Zema e os políticos da base.
— Independente do resultado, o derrotado é o governador Zema — avaliou.
Votação
Líder do governo, João Magalhães (MDB) orientou voto contrário a todas as emendas.
As alterações redacionais propostas previam pagamento retroativo em parcela única, reajuste de 5,79% a partir de janeiro do próximo ano, recomposição de 24% aos servidores da Segurança Pública em duas partidas, dentre outros pontos.
Ao contrário da votação em 1° turno, quando o placar foi acirrado, desta vez o governo não enfrentou dificuldades. Em quase todas as emendas, a deliberação terminou com 28 votos favoráveis e 36 contrários.
Leia também
Eleição para prefeito caminha para dualidade
Legislatura tem seis pedidos de CPI, três seguem emperradas
Deputados rejeitam emendas em disputada acirrada na Assembleia
Prefeitura responsabiliza Copasa por problemas da ETE no bairro Copacabana
Audiência entre Cemig e Prefeitura sobre usina flutuante será em agosto
Câmara promove palestras sobre novas regras eleitorais
Mais recentes
Do nosso arquivo
Um ano sem Zé Braz: legado do vereador ainda ressoa pela cidade
Licença de Eduardo Bolsonaro termina neste domingo e ausência pode gerar faltas na Câmara
Deputada Lohanna destina R$ 150 mil para mutirão de castrações em Divinópolis
Lula critica sanções dos EUA contra ministros do STF: “Medida arbitrária e sem fundamento”
Veja tudo o que publicamos em junho de 2024
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…




