Diálogo sobre frutas

Augusto Fidelis
Não há dúvidas de que o mundo mudou muito nos últimos 40 anos. Até a comida, que antes nutria sem restrições, agora virou veneno, capaz de mandar alguém para a sepultura. Num dia desses, gozava eu da companhia da Salete e da Maninha, quando as duas passaram a discordar sobre o motivo mais inusitado: o consumo de frutas. Saudosista, disse Salete:
- Gente, que saudade da casa dos meus avós, preciso ir lá com urgência. O vô Zoca, naquela idade, ainda trabalha e mantém o pomar impecável. Semana passada liguei para a vó Ana e ela disse que há muitas laranjas, docinhas. Vou me sentar debaixo do pé e me fartar.
- Você está louca, Salete?! Vou com você. Laranja se chupa uma só, porque tem alto índice glicêmico, joga o açúcar no sangue lá para as grimpas. Chega um momento na vida, Salete, que a gente não pode facilitar!
- Você está me chamando de velha, Maninha? Eu sou velha, Maninha?!
- Salete, você não é velha, criatura, você está até muito conservada! Mas o tempo passa, Salete. Quantos janeiros você já tem?
- Não sei, Maninha, a idade é coisa que não me preocupa. Eu ando é para a frente!
- Se você não sabe, Salete, eu sei: você já acumulou 43 janeiros. Isso pesa, minha querida!
- Maninha, quando Jesus disse: orai e vigiai, nesse caso ele disse para você cuidar da sua vida, não da minha. Vou à casa do vovô e não quero a sua companhia. Sim, vou chupar laranja, uva, comer goiaba. A vó Ana falou que a parreira está carregada e há muita uva madura.
- Mais uma razão, Salete, para eu ir com você. A não ser que você mande furar a cova antes, para dar menos trabalho depois. Uva se chupa no máximo três. Como a laranja, tem muito açúcar. Vai ter de ser vigiada 24 horas por dia. Pelas suas palavras, Salete, posso adivinhar os seus pensamentos: você está querendo é se matar, e o mais grave: ameaçando a si com alta ingestão de frutas. Tenha amor à vida, amiga!
- Acho que vou morrer é asfixiada por uma pessoa tão inconveniente. Sabe o que eu vou fazer, Maninha, de verdade? Vou ali no açougue comprar um mocotó, fazer um bom caldo, e tomar uma cachaça com limão e mel.
- Ah! Mas você não vai comer sozinha, né Salete, porque isso é muito bom para combater a gripe, tem sustança. Estou sem dinheiro para lhe ajudar na compra, mas eu ajudo a carregar. Compra uma cervejinha também!
- Maninha, eu não joguei pedra na cruz. Vai baixar noutro terreiro, porque este corpo não lhe pertence. Adeus, Maninha, como a fruta que eu quiser, ok?
- Então vai, Salete, horrorosa, cansada! Quando você precisar de mim, procure outra, viu?!
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