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Augusto Ambrosio Fidelis

Desrespeite-me, por favor!

Por Bruno
Desrespeite-me, por favor!

Augusto Fidelis

Segundo observadores, a minha amiga Nair Simpliciana tem mais de 60 anos. Aliás, quase 70, como afirma o Zé da Maria Dominga. Mas Nair não conta a sua idade nem que a vaca tussa. Fica furiosa quando alguém pergunta. De acordo com  ela, esta não é indagação que se faça a uma mulher. Mas não me canso de falar para a Nair: filha, não deixe raízes brancas, pois, caso contrário, todo mundo vai saber que você pinta os cabelos. Ainda mais agora que você quer, a todo custo, arrumar um namorado jovem.

Num dia desses, Nair entrou numa loja ali na rua Goiás disposta a renovar o seu guarda roupa. Assim que entrou foi recebida por um rapaz, muito bonito, do jeito que ela está procurando. O rapaz, todo cerimonioso, a recebeu com fidalguia e disse:

- Boa tarde, senhora, em que posso ajudá-la?

- Senhora? Eu tenho cara de senhora? – perguntou Nair com rispidez.

- Não, não tem, mas eu disse senhora apenas por respeito.

- Ora, rapaz, se me chamar de senhora é sinal de respeito, me desrespeite, por favor!

- Tudo bem, desculpe-me! Em que posso ser útil?

- Você é casado?

- Ainda não, mas estou comprometido.

- Sem graça, não custava nada dizer que está desimpedido!

Em seguida, Nair mandou descer prateleiras e mais prateleiras, fazia o rapaz abrir todas as embalagens, evento que durou mais de uma hora. No final, Nair comprou apenas um bustiê. Admirado, o rapaz perguntou:

- Mas a senhora, digo, você vai levar somente isto?

- Claro, não estou levando o que vim procurar!

- O que você veio procurar? No meio de tanta coisa não há nada que lhe agrade?

- Você me agrada, porém disse que é comprometido! Eu poderia comprar esta loja inteira, mas você não sabe negociar!

- Eu não estou à venda! Aqui é uma loja de roupas, não de namorados. Onde você mora?

- Anota meu telefone. Vivo na ponte aérea Rio/Miami, mas quando eu estiver por aqui a gente se fala – saindo em seguida, sem olhar para trás.

Quando Nair me contou todo esse babado eu fiquei boquiaberto e exclamei:

- Que coragem, amiga! E se ele descobrir que você nunca foi além da ponte do Gafanhoto? Imagina se isso cair em bocas de matildes?

- Não estou nem aí, não devo a ele nem obrigação.

Não sei por meio de quem, mas a Nininha soube disso e contou tudinho para a Salete, que contou para a Das Dores, que contou para o Múcio, que contou para a turma dos pinguços que fica lá no boteco do João Lúcio. Estes acharam um absurdo o acontecido. O Beiçola falou e disse que sabe quem é o rapaz da loja e vai contar tudo para ele, e acrescentou: “Essa Nair não vale a água do batizado”. Com isso, a Nair ficou muito mal falada, porém, do jeito que ela gosta: desrespeitada. Afinal, a idade é um estado de espírito, não a contagem dos anos.

augustofidelis1@gmail.com

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