Vidas desfolhadas

Há algum tempo, assisti a um filme do cineasta japonês Akira Kurosawa, cuja história se passa numa aldeia salpicada de moinhos d’água. Um visitante chega ao local e encontra um idoso sentado na porta de casa fazendo um trabalho artesanal. Ficam ali conversando até o momento em que o idoso pede licença para se aprontar, pois precisa ir a um enterro. Passados alguns minutos, o idoso sai todo fantasiado com um pandeiro na mão. Surpreendido, o visitante pergunta:
— Mas o senhor vai a um enterro? – ao que o idoso responde:
— Sim, mas a mulher que morreu tinha 102 anos. Aqui, temos o costume de chorar apenas a morte de crianças e de jovens, poque partiram sem cumprir a missão. No caso dessa mulher, pela idade, era mesmo a hora de partir.
O visitante e o idoso caminham por uma estrada até chegar a uma encruzilhada. Enquanto ainda conversam, aponta ao longe um cortejo com bailarinas à frente, seguidas pelo caixão da idosa e atrás uma banda de música que executava alegres canções. À passagem da procissão, o idoso junta-se às bailarinas e vai dançando e batendo o pandeiro.
O ser humano, independentemente da época, da nacionalidade, do credo, da cultura e da posição social é movido pelas mesmas coisas: alegria e tristeza, altruísmo e egoismo, bondade e maldade. Porém, em certas épocas, a maldade recrudesce, as pessoas se sentem perdidas, assoladas pela depressão. Para Adolf Rundssicki, “vivemos num mundo ameaçado, e neste mundo o único valor autêntico que nos resta é a vida, nada mais que a vida.”
No entanto, é justamente a vida a mais ameaçada, seja pela violência externa ou pela mente corroída por maus pensamentos. Dia após dia os sinos dobram por aqueles que partem sem ter cumprido a missão.
Muitas famílias divinopolitanas choram a partida dos seus jovens, principalmente do sexo masculino. A cerca de um mês, um jovem que trabalhava num armazém, no final do dia, deixou o local de trabalho, mas não foi para casa. Passado o horário costumeiro de chegada, a família ligou o sinal de alerta: alguma coisa havia acontecido. Três dias depois o Rio Itapecerica devolveu o seu corpo. Foi levado diretamente para o cemitério sem nenhum ritual de despedida.
Outro jovem se preparava para se tornar policial militar. Em determinado dia, não compareceu ao treinamento. Ao ser procurado, foi encontrado sem vida, com uma corda no pescoço. Além disso, é medonho o número de jovens sendo eliminados pelo tráfico de drogas.
A exemplo de João Batista, os religiosos precisam mostrar aos jovens Jesus no meio de nós. Mas parte do clero católico está contaminado pela Teologia da Libertação, que tirou o Messias do altar. E as igrejas evangélicas trocaram o Cristo por dinheiro. Com este cenário, quem vai recolher as ovelhas ao redil?
Augusto Fidelis
augustofidelis1@gmail.com
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