Tolerância máxima

Augusto Fidélis
Acabei de montar meu próprio instituto de pesquisa e o primeiro trabalho já está concluído. Comigo não tem lero-lero: chego, observo, converso e concluo sem nenhum erro, para mais ou menos. O que me levou a esta iniciativa foi um assunto palpitante, que incomoda a muita gente, traz transtornos irreparáveis às famílias e influencia meio mundo. As perguntas dominantes são duas: por que os casais de hoje se separam com tanta facilidade? Por que casais que sobem ao altar sob aplausos de grandes assembleias, que juram amor eterno, como se eterna fosse a vida, e em pouco tempo se transformam em inimigos?
Para elucidar o mistério, achei por bem começar a busca por aqueles que já superaram a marca dos sete anos de união. Aliás, fui além. Para tanto, ainda ontem, corri a uma igreja da cidade, onde Sô José e dona Maria de Lourdes celebravam 50 anos de matrimônio. Presentes os filhos, netos, bisnetos e muitos amigos do casal. O padre caprichou na homilia, pois ali estava um exemplo que a Igreja valoriza: a estabilidade familiar.
Como meu trabalho é muito sério, tive de levar para a igreja uma parafernália de aparelhos e fios, ocupando os corredores. Os convidados olhavam tudo aquilo com desconfiança, talvez receosos de enrolar o pé numa hora tão inoportuna. Na igreja tudo chama mais atenção do que em qualquer outro lugar: a tosse, o choro da criança, o menino que corre, o tropeço na leitura, o toque do celular de algum desavisado. Mas, ao terminar a missa, os aparelhos que coloquei no caminho não foram empecilhos para os convivas, que avançassem sobre o casal com abraços e beijos.
Como não sou flor que se cheire, dei empurrões, beliscões, fiz cara feia. Com isto, aproximei-me do casal e perguntei: como vocês conseguiram chegar até aqui, juntos, e comemorar Bodas de Ouro? Sô José olhou profundamente nos olhos da dona Maria de Lourdes e respondeu: “São 50 anos de santa paciência, um tolerando as rabugices do outro. Agradecemos àqueles que vieram se juntar a nós nesta ação de graças pela vitória alcançada”. Pronto: com esta resposta, concluí a minha pesquisa. Na verdade, só faltam as tabulações e os gráficos.
Veja só: os casais que se uniram há mais tempo, que completam 50 anos de tolerância máxima, fizeram seu juramento numa época em que a vida era mais serena, a mulher mais feminina e o homem o chefe da família. A tentação sempre existiu, mas as pessoas eram mais religiosas e espantavam o “pé-sujo” com apenas uma oração. Hoje, a coisa está feia: a oferta de sexo é maior do que a procura, as pessoas sonham em ter mais do que precisam e o dinheiro perde o valor a cada dia. Soma-se a isso a falta de compromisso entre os cônjuges, e com os amigos que foram aplaudir o casamento. Ainda bem que nunca me ajuntei e nunca me separei. Glória!
augustofidelis1@gmail.com
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