Editorial: Redes sociais

De 2016 para cá, com o boom das plataformas digitais, políticos brasileiros passaram a querer governar por meio das redes sociais. É impossível, e às vezes cansativo, comentar sobre o tema e não citar novamente a célebre frase de Umberto Eco: "As redes sociais deram o direito à palavra a legiões de imbecis que, antes, só falavam nos bares, após um copo de vinho e não causavam nenhum mal para a coletividade”. Essa pode ser uma das grandes verdades ditas no século, afinal de contas, já está mais do que comprovado que muitas pessoas não estavam preparadas para lidar com esse fenômeno. Muito além das fake news, elas reduziram a capacidade do ser humano de raciocinar. Ainda não é possível mensurar o quanto o “se está na rede social então é verdade” impacta a sociedade, mas principalmente o quanto essa artimanha utilizada pelos políticos afetou o Brasil como um todo. Sem sombra de dúvidas, há de se tirar o chapéu para os políticos que identificaram, ainda em 2016, a possibilidade de explorar as vantagens do uso das redes para ampliar seu alcance.
Viram, trabalharam com afinco e beberam água limpa. Manipularam o quanto quiseram, da forma que quiseram, conquistaram benefícios absurdos, mas se esqueceram de que tudo nesta vida tem hora contada. Criou-se o discurso de aproximar-se da população, de transparência e honestidade para surfar à vontade nessa onda, sendo aplaudidos pelos mais alienados, que acreditavam que tudo o que estava ali, na tela do seu celular, era verdade. Como toda ação tem reação, o “sistema” não se sustentou, não se sustenta e está caminhando para o fim. Afinal de contas, governar, representar um povo exige muito mais do que discursos bonitos nas redes sociais, é preciso ação quando a câmera baixa, é preciso inteligência, articulação, estudos. É preciso ir muito além de pedir “eu gostaria que vocês viralizassem esse vídeo”. É necessário ir mais longe do discurso pronto, da fala bonita, pois um povo não vive de palavras e muito menos de redes sociais. A população vive e sobrevive de ações que façam a diferença e, claro, de muito trabalho.
A já conhecida tática de transferência de responsabilidade junto ao discurso do “Divinópolis nunca cresceu tanto” já está ficando velha. O grande problema de se governar por redes sociais, de criar um personagem que não sai dos discursos bonitos é exatamente esse: quando a “máscara cai”, os problemas continuam no mesmo lugar, quiçá piores do que antes. De um lado tem asfalto, mas do outro tem um sistema de saúde próximo de enfrentar uma de suas piores crises. De um lado tem calçamento, mas do outro tem uma CPI que apontou indícios de superfaturamento na Educação. De um lado tem vídeo mostrando praças reformadas, mas do outro tem denúncias e mais denúncias sendo aceitas pelo Ministério Público (MP) e pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE). As comprovações de que governar por rede social não é mais sustentável são visíveis, só não percebe quem não quer ou insiste em tapar o sol com a peneira. Sigamos, mas sem esquecer que, um dia, a conta vem.
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