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Política

Eleição dos odiados

Eleição dos odiados

Há uma crueldade particular no tipo de disputa que o Brasil se prepara para vivenciar. A pesquisa Nexus/BTG divulgada nesta segunda-feira não anuncia uma eleição presidencial: anuncia um julgamento coletivo, em que o eleitor está condenado a escolher entre candidatos que ele mesmo não quer. Lula e Flávio Bolsonaro empatam tecnicamente no segundo turno — 46% a 45% —, enquanto ambos carregam 48% de rejeição. Não é uma coincidência numérica. É um retrato de um país politicamente esgotado, dividido ao meio e sem encontrar saída pelas bordas. Zema (Novo) e Caiado (PSD) entram no tabuleiro como alternativas que ainda não foram destruídas pelo desgaste do poder federal, mas o jogo tende a encolher conforme a polarização se intensificar. O campo eleitoral brasileiro funciona como uma gangorra travada: qualquer movimento de um lado empurra votos para o outro, não por convicção, mas por repulsa. Não se vota em alguém. Vota-se contra alguém. E quando 48% rejeitam tanto o incumbente quanto o principal desafiante, o país não está escolhendo um presidente — está escolhendo o seu mal menor. Exagero? Não! realidade.

Vitória sem mandato real

O problema não termina na eleição. Começa ali. Quem vencer em 2026 assumirá a faixa presidencial sem qualquer mandato real de transformação — apenas com a legitimidade formal de ter recebido um voto a mais. Se o vencedor não conseguir construir maioria no Congresso, governará sob veto permanente. Se conseguir, muito provavelmente o fará por meio das mesmas coalizões fisiológicas que já desfiguraram inúmeros projetos de governo neste país. A oposição, por sua vez, estará ali desde o primeiro dia, coesa no ódio ao adversário — o único combustível que move a política brasileira com eficiência verdadeiramente industrial. A eleição dos odiados produz governos sitiados. E governos sitiados, historicamente, recorrem a dois instrumentos: o clientelismo para comprar paz no Legislativo e o discurso do inimigo externo para mobilizar a base. Nenhum dos dois resolve o país. Ambos o adiam.

Discordar vira traição

A polarização no Brasil atingiu um ponto tão preocupante, que o debate político deixou de ser disputa de ideias e virou guerra moral. Não se discorda mais de um projeto ou de um governo — ataca-se o caráter de quem pensa diferente. Direita e esquerda passaram a tratar o outro lado como ameaça existencial, não como adversário legítimo. O resultado é visível: famílias rompidas, amizades desfeitas e um ambiente onde diálogo virou sinônimo de fraqueza. Quando qualquer crítica é recebida como “você está do lado deles”, sobra pouco espaço para corrigir rumos, fiscalizar poder ou construir consensos. A democracia depende de oposição, mas não sobrevive quando metade do país enxerga a outra metade como inimiga a ser eliminada. E lamentavelmente, como dito acima, tudo caminha para que a eleição deste ano, repita os “mesmos modus operandi”

Combustível da radicalização

É cada dia mais claro que boa parte desta divisão política ridícula e desnecessária é alimentada pelo modo como se consome informação nos dias atuais. Algoritmos entregam exatamente o que confirma nossas crenças e escondem o que contradiz. Assim, cada grupo vive numa bolha própria, convencido de que só o seu lado tem fatos e o outro só tem mentira ou má-fé. Nesse ambiente contaminado, políticos e influenciadores ganham engajamento não propondo soluções, mas atacando o “outro lado” com cortes, memes e frases de efeito. Escândalos reais e fake news se misturam, enquanto a indignação vira moeda. E como “toda ação tem sua reação”, o preço é alto: se perdeu a capacidade de reconhecer problemas óbvios se eles vierem do “nosso” político, e rejeitamos avanços necessários se vierem do “deles”. Neste contexto, a radicalização deixa de ser um mero acidente e vira estratégia de poder. Simples assim! 

Rombo preocupante

Nesse ínterim vem perguntas como: e os Correios? A estatal acumulou prejuízo de R$ 8,5 bilhões em 2025 — crescimento de 1.300% no rombo desde o início do atual governo —, representando mais de 15% do déficit fiscal do setor público consolidado do país. Quatorze trimestres consecutivos de perdas. Não se trata mais de ineficiência gerencial: refere-se a um colapso estrutural tolerado por omissão política. Uma empresa pública que sangra com esse valor bilionário, num único ano e não recebe nenhuma resposta consistente, não é nada mais do que ser usada como trampolim de aparelhamento, não como prestadora de serviços à população. A ver se o plano de reestruturação, de fato, surtirá o efeito necessário.

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