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Editorial

Hospital não é troféu

Hospital não é troféu

Antes tarde do que nunca. Depois de mais de uma década de promessas, adiamentos e vergonhosos capítulos de descaso, o Hospital Regional de Divinópolis, símbolo do abandono da saúde pública na região, finalmente deu um passo concreto rumo à conclusão. O governador Romeu Zema (Novo) enfim anunciou que a unidade será retirada da lista de bens a serem federalizados no programa de renegociação de dívidas dos estados. O imóvel será doado à Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), e a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) ficará responsável pela equipagem e operação.

Na prática, isso significa que o hospital pode, enfim, sair do papel. Mas o que se viu após o anúncio foi uma enxurrada de discursos, postagens e tentativas de apropriação política, como se o gesto fosse um favor, um ato heroico, um gesto de boa vontade. Bastou o governador abrir a boca para que começasse a corrida pelo crédito: deputados, prefeitos, vereadores e militantes de todas as cores se apressaram em reivindicar o mérito. Uns dizendo que foi o governo A que salvou o projeto. Outros, que foi a pressão do governo B. E a população, empurrada para os mesmos palanques, embarca na polarização que sempre atrasa o que realmente importa.

Mas o Hospital Regional não é um troféu político. Não pertence ao governo A, ao partido B, nem ao deputado C. Pertence ao povo, às milhares de pessoas que, há anos, enfrentam filas, viagens e angústia para conseguir atendimento digno. Cada pedra, cada tijolo daquela estrutura inacabada carrega a dor de uma região que foi ignorada por tempo demais.

É curioso e triste ver que, em vez de celebração coletiva e cobrança contínua, o anúncio virou motivo para disputa de narrativa. O próprio discurso de Zema, em vez de vir com humildade e compromisso, veio com tom de quem “salvou” o hospital da própria burocracia do Estado. Não salvou. Apenas corrigiu um erro que nunca deveria ter sido cometido.

É bom lembrar: o Hospital Regional só voltou a andar porque, em determinado momento, os opostos decidiram dialogar. Foi quando nomes como Eduardo Azevedo e Lohanna França, adversários ferrenhos, levaram o tema de volta à Assembleia. Foi quando lideranças como Gleide Andrade e Gleidson Azevedo se colocaram no mesmo lado da mesa. Foi quando a sociedade civil e a imprensa regional continuaram cobrando. Essa união rara, quase improvável, foi o que manteve o tema vivo.

O anúncio desta semana é importante, mas está longe de ser o ponto final. O papel aceita tudo, o microfone também. Agora é hora de garantir que as promessas se transformem em paredes, equipamentos e atendimento. É hora de fiscalizar, de cobrar prazos, de exigir transparência.

Enquanto políticos trocam farpas para ver quem vai estampar a faixa de inauguração, famílias continuam enfrentando a falta de leitos, a demora por cirurgias, o sofrimento que o hospital poderia, e deveria, já estar ajudando a aliviar.

Divinópolis e o Centro-Oeste mineiro não precisam de um novo palco para vaidades. Precisam de um hospital funcionando. E que fique claro: o dia em que as portas se abrirem e o primeiro paciente for atendido, esse mérito será coletivo: da união, da persistência e da cobrança. Até lá, não há heróis. Há obrigações atrasadas.

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