A verdadeira política

Em tempos em que o diálogo é confundido com fraqueza e a cooperação é vista quase como traição, há gestos que precisam ser reconhecidos. Divinópolis assistiu, nas últimas semanas, a um raro momento de maturidade pública: lideranças políticas de partidos opostos, com históricos de embates e visões de mundo distintas, decidiram unir forças por uma causa que está acima de qualquer disputa partidária: a conclusão do Hospital Regional Divino Espírito Santo.
Há quase duas décadas em construção, tornou-se o retrato do descaso e da burocracia. Um prédio quase pronto, mas vazio, que simboliza o quanto a política se perde entre promessas e vaidades. Por isso, quando o diálogo reaparece, merece ser valorizado.
Tudo começou com o encontro entre o prefeito Gleidson Azevedo (Novo) e a secretária nacional do PT, Gleide Andrade. Um gesto improvável, mas necessário. Durante um encontro entre prefeitos e lideranças da região, Gleidson chegou a brincar: “Eu sou a favor da anistia.” Gleide respondeu, de pronto: “Eu sou contra.” Riram, concordaram em discordar, e seguiram tratando do que realmente importa. Porque, no fim, é isso o que a política deveria ser: o espaço onde as diferenças se mantêm, mas não impedem que se construa algo em comum.
O episódio mais recente veio da Assembleia Legislativa de Minas. Os deputados Eduardo Azevedo (PL) e Lohanna França (PV), que desde os tempos de Câmara Municipal colecionam debates duros e divergências públicas, surgem, curiosamente, defendendo a mesma pauta. Eduardo apresentou um projeto que busca acelerar a entrega da unidade. Já Lohanna, que defendeu duramente o Hospital Regional durante reunião da comissão, há poucos dias, havia protocolado duas propostas semelhantes, que seguem em tramitação. São iniciativas de rivais ideológicos, mas que apontam para a mesma direção.
E é justamente aqui que está o ponto essencial: não é hora de corrida política, de medir quem chegou primeiro ou quem vai assinar a vitória. O que Divinópolis precisa agora é de união, de gestos concretos, de diálogo verdadeiro e de esforço conjunto para que a obra se conclua e a unidade, enfim, comece a funcionar.
O Hospital Regional é a principal demanda da saúde pública do Centro-Oeste mineiro. Sua entrega significará mais leitos, menos sofrimento e dignidade para milhares de pessoas que hoje esperam por atendimento na superlotação da UPA ou enfrentam transferências para outras cidades. Se a união entre adversários for o caminho para isso, que ela seja celebrada, porque o extremismo já provou que não constrói nada.
A verdadeira política nasce quando a cooperação vence o ego e o resultado se sobrepõe à disputa. Foi assim com Gleidson e Gleide, é assim agora com Eduardo e Lohanna. São gestos que mostram que, por mais improvável que pareça, ainda há espaço para o diálogo em meio à polarização.
Que esse exemplo inspire outros. Que a pauta da saúde continue unindo, e não dividindo. O povo não precisa de briga, precisa de hospital. E, no fim das contas, é disso que se trata a verdadeira política: a que serve, a que constrói, a que cura.
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…
