‘Crime normalizado’

Os números não mentem, mas o país insiste em fingir que não os vê. Quase um terço dos adolescentes brasileiros, entre 14 e 17 anos, já experimentou bebidas alcoólicas, embora a lei proíba a venda para menores. Este é o retrato revelado pela 3ª edição do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), apresentado recentemente durante audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Um dado que deveria causar indignação, mas que, na prática, parece provocar apenas um brinde coletivo à indiferença.
O álcool continua sendo a droga mais acessível, mais consumida e, consequentemente, mais relativizada do país. A legislação existe: o artigo 243 do Estatuto da Criança e do Adolescente prevê pena para quem vende ou fornece álcool a menores, mas a aplicação é frágil, quando não inexistente. Quem fiscaliza os bares, os supermercados, as lojas de conveniência? Quem impede que o adolescente compre pela internet ou que o próprio adulto ofereça a bebida em casa, “só para experimentar”? A omissão é generalizada.
O problema é cultural antes de ser jurídico. O Brasil normalizou o álcool como sinônimo de socialização, celebração e até de maturidade. Crescemos assistindo a comerciais que associam o copo ao sucesso, à descontração, à liberdade. O resultado é um ciclo de permissividade que empurra cada vez mais cedo os jovens ao consumo sem que compreendam o que estão ingerindo, e menos ainda o impacto disso em um cérebro em formação.
Pesquisadores da Unifesp, responsáveis pelo estudo, alertam para os riscos: danos cerebrais permanentes, aumento da vulnerabilidade a transtornos mentais, comportamentos impulsivos e maior propensão a acidentes, violência, gravidez precoce e infecções sexualmente transmissíveis. É uma lista que poderia ser evitada se houvesse, de fato, educação, fiscalização e presença dos adultos, tanto em casa quanto nas instituições.
Mas o que se vê é um jogo de empurra. Pais terceirizam a responsabilidade à escola. Escolas culpam a falta de políticas públicas. O poder público, por sua vez, prefere campanhas genéricas, sem continuidade e sem fiscalização efetiva. Enquanto isso, adolescentes seguem experimentando, bebendo, adoecendo.
Há, no entanto, um ponto de partida: informação e ação conjunta. O debate realizado na Assembleia mineira mostra que o tema começa a ganhar o espaço que merece, mas é preciso mais do que audiências e relatórios. A lei recém-sancionada, que amplia a pena para quem vende álcool a menores, é importante, mas será inútil se não vier acompanhada de fiscalização real e de políticas integradas, do preço à propaganda, do controle à prevenção.
O país precisa parar de tratar o álcool como parte do folclore e enxergá-lo pelo que é: uma droga lícita, porém perigosa, que destrói lares, tira vidas e abre caminho para outros vícios. Não se trata de demonizar o consumo adulto e responsável, mas de proteger quem ainda não tem maturidade para lidar com as consequências.
Enquanto o copo continuar sendo oferecido como símbolo de pertencimento, e não de risco, o Brasil seguirá tropeçando entre leis que não saem do papel e uma juventude que paga a conta. A sobriedade que falta está, talvez, menos nos bares e mais nas consciências.
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