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Editorial

Guerra sem nome

Guerra sem nome

Divinópolis sangra e, pior que isso, parece ter se acostumado a sangrar. Cada nova morte deixa menos espanto, cada corpo no chão encontra menos voz. A cidade que um dia se orgulhou de ser tranquila agora convive com o barulho dos tiros e o silêncio das respostas. Até o momento em que esse editorial era escrito, no começo da tarde de ontem, já eram 43 homicídios registrados em 2025, quase o dobro de todo o ano passado. Quarenta e três vidas interrompidas. Quarenta e três histórias que terminam da mesma forma: sob o som das sirenes e o olhar cansado de quem não se surpreende mais.

O último deles foi na noite de terça-feira. Um homem de 28 anos, com passagens por tráfico e roubo, foi morto a tiros dentro de um bar no bairro Planalto. Entrou para comprar um refrigerante, saiu carregado em um saco preto. Dois homens chegaram, atiraram e fugiram. Um cliente, atingido de raspão, foi salvo por acaso. É esse o retrato da banalidade do mal: um comércio de bairro transformado em palco da guerra silenciosa que se espalha pelos cantos da cidade.

Dias antes, outro corpo foi encontrado no bairro Savassi, desovado em uma rua sem iluminação. Um homem esfaqueado até a morte, parte de uma disputa por território no tráfico. Três suspeitos foram presos, um deles tentando subornar os policiais com R$ 998 para escapar da prisão. O ciclo é conhecido: “sai da cadeia, volta ao crime, é morto ou mata”. Uma sucessão de “tragédias” previsíveis.

Mas o que assusta não é apenas o número crescente de homicídios. As mortes se sucedem com a regularidade de uma previsão do tempo: “mais um assassinato”, “mais um corpo”, “mais uma noite violenta”. A manchete muda o bairro, repete o enredo. Entre um post e outro nas redes sociais, entre a pressa do dia e o medo da noite, nos tornamos espectadores de uma guerra sem nome.

Há quem diga que se mata por drogas, por dívida, por vingança. Mas a criminalidade violenta é a ponta do iceberg de uma desigualdade que insiste em crescer, de um Estado que só chega tarde, quando a sirene já ecoa. O cientista social Emanuel de Morais definiu bem: “a violência é a distorção da busca por ser alguém. O menino que cresce invisível sonha em ser temido. É o mesmo que antes era ignorado, agora empunhando uma arma para ser notado”. 

Enquanto isso, o poder público se limita a reagir. A polícia prende, a Justiça solta, e o ciclo recomeça. Divinópolis vive uma escalada que não é mais pontual: é sistêmica. E diante disso, não há espaço para silêncio ou normalização. Quando a violência se torna rotina, a barbárie se institucionaliza. Quando o medo ocupa o lugar da indignação, a sociedade adoece.

Quantos mais precisarão morrer para que a cidade desperte? Até quando aceitaremos viver entre muros, enquanto a rua se torna território de guerra? Cada homicídio é um fracasso coletivo, e cada vez que desviamos o olhar, ajudamos a cavar o próximo túmulo.

Divinópolis precisa de coragem para enfrentar o que muitos preferem ignorar: a violência não é apenas o que acontece nas esquinas, mas o reflexo do que deixamos de fazer. O verdadeiro inimigo da segurança pública não é o crime em si, é a indiferença que o alimenta.

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