Sem dignidade

O Brasil assiste, mais uma vez, a um retrato cruel da ineficiência pública. O INSS, órgão responsável por garantir direitos básicos deixa a burocracia, os entraves fiscais e a falta de planejamento transformam o que seria uma simples realocação de recursos em desassistidos justamente aqueles que milhões de brasileiros, anunciou, nesta semana, que suspendeu o programa que pretendia reduzir a gigantesca fila de espera por benefícios como aposentadorias, auxílios deixa desassistidos justamente aqueles que já deram sua parcela de contribuição à sociedade.
Impasse que custa caro — não ao Tesouro, mas à vida de milhões de pessoas que dependem desse dinheiro para sobreviver. Entre elas, aposentados que esperam o primeiro benefício, viúvas em busca da pensão, e famílias de baixa renda que aguardam o BPC para colocar comida na mesa.
É simbólico — e trágico — que um programa voltado à produtividade e à agilidade tenha parado por inanição financeira. O Programa de Gerenciamento de Benefícios (PGB), que pagava bônus a servidores e peritos por análises extras, representava uma tentativa de resposta concreta a um problema crônico: a lentidão na concessão de benefícios. E, ao que parece, durou menos do que a paciência de quem aguarda meses — ou até anos — por um direito básico reconhecido em lei.
O valor pedido para manter o programa, R$ 89 milhões, é irrisório diante do orçamento federal. Mas a burocracia, os entraves fiscais e a falta de planejamento transformam o que seria uma simples realocação de recursos em um impasse que custa caro — não ao Tesouro, mas à vida de milhões de pessoas que dependem desse dinheiro para sobreviver. Entre elas, aposentados que esperam o primeiro benefício, viúvas em busca da pensão, e famílias de baixa renda que aguardam o BPC para colocar comida na mesa.
A suspensão do programa não é apenas um problema administrativo; é um sintoma da incapacidade do Estado brasileiro de gerir o que é essencial. A Previdência, ao longo dos anos, se tornou sinônimo de espera, incerteza e desrespeito. Os números mudam, os governos passam, mas a fila permanece — crescendo como uma ferida aberta na confiança entre o cidadão e o poder público.
Pior do que a suspensão é a naturalização dela. O discurso oficial fala em “medida temporária”, em “necessidade orçamentária”, como se fosse aceitável deixar milhões sem resposta em nome do ajuste fiscal. O teto de gastos, as metas de superávit, os bloqueios orçamentários — tudo isso soa distante e técnico demais quando se pensa em quem depende desses benefícios para comprar remédios, pagar contas ou simplesmente viver com dignidade.
Enquanto Brasília discute cifras e contingenciamentos, o tempo passa para quem espera. E o tempo, para quem está no fim da vida ou em situação de vulnerabilidade, é um bem que não se pode repor.
É preciso reconhecer: o problema da fila do INSS não é novo, tampouco fruto apenas da falta de dinheiro. É consequência direta de uma cultura administrativa que prefere remendar a enfrentar. Programas como o PGB são criados com pompa, duram poucos meses e acabam soterrados pela falta de continuidade e de compromisso real com a eficiência pública.
O Estado brasileiro precisa, com urgência, entender que política pública não se sustenta de improviso. Não se pode reduzir a fila da Previdência com medidas paliativas e orçamentos instáveis. É necessária uma reforma de gestão, de estrutura e, sobretudo, de prioridade moral.
Porque enquanto a fila cresce, cresce também a sensação de abandono. E, no fim das contas, o que se suspende não é apenas um programa: suspende-se a esperança de milhões de brasileiros que acreditaram que, um dia, o Estado estaria do lado deles.
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