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Editorial

Mais registros, menos respostas

Mais registros, menos respostas

A cada novo boletim, mais casos, mais mortes, e o mesmo silêncio. O Brasil ultrapassa a marca de uma centena de notificações de intoxicação por metanol, com quase cinquenta confirmações e nove mortes confirmadas. E, mesmo diante de um quadro tão grave, o país ainda caminha às cegas. Os números crescem, as vítimas se acumulam, mas as respostas continuam presas em notas vagas e investigações sem desfecho. O que está acontecendo? De onde vêm essas bebidas adulteradas? Quem está por trás dessa rede criminosa?

Enquanto as estatísticas se multiplicam, o silêncio das autoridades é o que mais chama atenção. O Ministério da Saúde (MS) divulga boletins. Os órgãos de fiscalização aparecem apenas nas manchetes. Mas as ações efetivas, aquelas que realmente poderiam conter o avanço do problema, ainda são tímidas e desarticuladas. O resultado é uma mistura perigosa de desinformação e descaso. O país parece acompanhar o avanço de um veneno invisível sem saber ao certo como ele continua circulando.

Já são casos espalhados por pelo menos 11 estados, com São Paulo concentrando a maioria, seguido de Paraná, Pernambuco e Rio Grande do Sul. Em Minas Gerais, um registro em Itajubá mostra que o risco está mais próximo do que se imagina. Ainda assim, as explicações seguem nebulosas. Fala-se em investigações, mas ninguém apresenta resultados. Fala-se em fiscalização, mas as bebidas adulteradas continuam chegando às prateleiras e às mesas.

O metanol é um produto químico altamente tóxico, sem cheiro e sem cor, usado para fins industriais, jamais para consumo humano. Pequenas quantidades são suficientes para causar cegueira ou morte. Mesmo assim, ele tem sido misturado ilegalmente a bebidas alcoólicas para baratear a produção e aumentar o lucro. É crime. E é um crime que está matando. O mínimo que se espera, portanto, é transparência. É saber quem está sendo investigado, o que está sendo feito e quais medidas estão sendo tomadas para proteger a população.

Mas o que se vê é o oposto. As informações oficiais são superficiais e chegam sem a urgência que o caso exige. Falta clareza, falta comunicação, falta comando. Ninguém explica como as falsificações ocorreram, nem por que os órgãos responsáveis não conseguem agir antes que novas vítimas apareçam. E, enquanto isso, o número de casos confirmados só aumenta, junto com a sensação de que o país está perdendo o controle da situação.

A sociedade tem o direito de saber. É preciso que o Ministério da Saúde, as secretarias estaduais e os órgãos de Vigilância Sanitária venham a público de forma clara e objetiva. Que apresentem planos, divulguem as marcas investigadas e intensifiquem a fiscalização. Que tratem o tema com a gravidade que ele exige, porque cada nova morte representa uma falha coletiva, um alerta ignorado.

Não se pode normalizar o inaceitável. O metanol não é um problema localizado, e sim o retrato de uma falha generalizada no controle e na comunicação. É um veneno que tem se espalhado junto com o silêncio e a falta de respostas. E, se esse silêncio continuar, o número de vítimas vai continuar subindo.

O país precisa enxergar o que está por trás dessa tragédia. Porque o metanol pode ser invisível, mas a omissão de quem deveria agir é cada vez mais evidente.

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