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Editorial

Vitória de ninguém

Vitória de ninguém

Mais de 60 mortos. Quatro policiais civis, 18 criminosos, e dezenas de corpos que, nas estatísticas oficiais, acabam dissolvidos na mesma contagem fria: “bandidos abatidos”. É esse o saldo, até o momento da escrita deste editorial, às 15h de ontem, da megaoperação nos Complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro. A maior da história do estado, segundo o próprio governador Cláudio Castro. Uma operação de guerra, com 2.500 homens, blindados, helicópteros e fuzis, que transformou uma das áreas mais populosas do país em campo de batalha.

E é justamente essa palavra que mais assusta: guerra. Porque quando o próprio Estado define sua ação assim, admite que perdeu o controle. Admite que não governa, combate. Mas o que está do outro lado também não representa inocência ou resistência social. O Comando Vermelho, alvo da operação, é uma facção que há décadas impõe um regime de terror, domina territórios, dita regras e executa quem ousa desobedecer. É o retrato mais cruel da ausência do Estado: quando o poder legítimo se retira, o crime preenche o vazio.

O discurso oficial fala em “narcoterrorismo”, em “pacificação”, em “retomar territórios”. Mas o que se vê há anos é a repetição de um roteiro conhecido: operações espetaculares, pilhas de corpos e, depois, o retorno silencioso do tráfico. O Estado desce atirando, recolhe armas e prisões, posa para fotos e vai embora. As vielas continuam sob o mesmo domínio, a mesma lógica de medo, a mesma ausência de política pública.

É trágico perceber que, em 2025, o Brasil ainda trata segurança pública como uma questão de confronto, não de construção. Falta o básico: inteligência, prevenção, oportunidades, educação. Falta presença do Estado que não venha fardada. Falta também uma resposta social que não aceite romantizar o crime como reflexo da pobreza, porque o tráfico não é resistência, é opressão.

A população do Rio de Janeiro vive há décadas entre dois fogos. Ambos, à sua maneira, impõem o medo, o silêncio e o exílio dentro da própria cidade. O morador é obrigado a conviver com o terror das facções, e, quando o Estado decide agir, é ele quem paga o preço do tiroteio. É cruel ouvir autoridades celebrarem números de apreensões como se fossem vitória, quando o que se multiplica são os enterros.

Quatro policiais mortos. Quatro famílias de agentes públicos que pagaram com a vida por uma política falida. Quarenta e tantos corpos de jovens, alguns que talvez nunca tiveram a chance de escapar do labirinto da miséria e da violência. 

A operação nos complexos da Penha e do Alemão pode ser a maior da história, mas não é a mais diferente. É mais uma tragédia anunciada, mais um capítulo da guerra sem fim que o país insiste em chamar de política de segurança. Enquanto o poder público seguir entrando só com armas, e o tráfico continuar governando pela força, o Rio e o Brasil continuarão sangrando. E nós continuaremos, tristemente, contando corpos, sem jamais contar histórias.

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