Infância é o chão que pisamos a vida inteira

Há coisas que a gente pensa ter deixado para trás, mas que continuam caminhando conosco. O medo de decepcionar, a necessidade de agradar, a dificuldade de pedir ajuda, a sensação de que precisamos dar conta de tudo, o tempo inteiro.
Mas já parou para pensar que algumas maneiras de existir começaram antes mesmo de termos palavras para explicá-las?
A infância é o chão que pisamos a vida inteira.
Não estamos condenados a repetir o passado. É ali, nos primeiros encontros com o mundo, que começamos a construir ideias sobre o amor, a confiança, o medo, a segurança, a vulnerabilidade e nosso próprio valor.
Antes de descobrirmos o mundo, somos apresentados a ele pelos olhos daqueles que nos criaram. No colo, nas palavras, nos silêncios e na maneira como recebem nossos sentimentos, aprendemos o que esperar da vida, dos outros e de nós mesmos.
Se o mundo nos pareceu seguro, talvez tenhamos aprendido a explorá-lo com confiança. Mas, se precisávamos observar o humor dos adultos antes de dizer o que sentíamos, talvez tenhamos aprendido a prestar tanta atenção nos outros que, em algum momento, deixamos de escutar a nós mesmos.
E a gente cresce. Estuda, trabalha, constrói uma família, assume responsabilidades e aprende a resolver problemas. Por fora, parece saber o que está fazendo. Por dentro, algumas vezes, ainda estamos tentando descobrir se podemos errar sem perder o amor de alguém.
O psicanalista Donald Winnicott nos ajuda a compreender por que as primeiras relações são tão importantes. Precisa de alguém que o acolha, reconheça suas necessidades e lhe ofereça segurança para, aos poucos, experimentar o mundo.
Não precisa de pais perfeitos ou de uma família sem conflitos. Precisa de cuidado suficientemente bom, de presença, de alguém capaz de perceber suas necessidades, reparar falhas, apresentar limites e permitir que descubra, no seu tempo, que pode existir sem esconder quem é.
Parece simples, mas pense comigo: quantas vezes uma criança escuta que não deve chorar, precisa ser forte ou está fazendo drama?
Uma criança não precisa apenas de comida, escola e proteção. Precisa também de espaço para o choro, a raiva, a curiosidade, a imaginação, o tédio e até para não fazer nada. Precisa encontrar alguém que não tenha todas as respostas, mas que não se assuste com suas perguntas.
Quando não encontra espaço para expressar o que sente, pode aprender a esconder partes de si para continuar sendo amada. Talvez seja aí que algumas histórias comecem a se repetir:
A menina que aprendeu a não dar trabalho pode se tornar a mulher que não sabe descansar.
O menino que precisou ser forte pode crescer sem conseguir pedir ajuda.
A criança elogiada apenas quando acerta pode se transformar em um adulto que acredita precisar de resultados extraordinários para merecer reconhecimento.
Talvez você se reconheça em alguma dessas histórias ou se lembre de alguém que ama.
Não se trata de encontrar culpados, nem de transformar a infância em explicação para tudo. Cada história é única, e nossas experiências não determinam, sozinhas, quem nos tornaremos. Mas vale a pena olhar (com carinho) para aquilo que aprendemos tão cedo e continuamos repetindo sem perceber.
Algumas marcas não aparecem nas fotografias da infância. Há pessoas que passam a vida tentando conquistar um afeto como se ainda esperassem ouvir: você é suficiente. Você pode descansar. Não precisa provar nada para merecer amor.
Ana Suy nos convida a olhar para aquilo que buscamos no outro.
Crescer também pode ser isso: descobrir que nem toda falta será preenchida pelo outro. Que o amor não precisa ser uma prova permanente. Que podemos ser amados sem acertar sempre, descansar sem culpa e reconhecer nossas fragilidades sem acreditar que elas diminuem o nosso valor.
Isso não significa culpar nossos pais ou quem cuidou de nós. Eles também tiveram suas infâncias, faltas, medos e limitações e ofereceram o melhor que conseguiam. Compreender isso não apaga o que doeu, mas pode nos ajudar a olhar para nossa história sem precisar permanecer presos a ela.
Tem tanta coisa bonita que a infância deixa em nós. A capacidade de brincar, a curiosidade, a imaginação, a alegria de se encantar com coisas pequenas. A vontade de perguntar por quê, inventar mundos e rir até perder o fôlego.
Crescer não deveria significar perder tudo isso.
A vida adulta pode ficar mais leve quando entendemos que amadurecer não é endurecer, que responsabilidade não é carregar tudo sozinho e que cuidar dos outros não significa esquecer de nós.
Por isso, hoje, quero deixar algumas perguntas.
O que você recebeu na infância que ainda faz bem? O que lhe faltou e você continua tentando encontrar? E que chão tem construído para si?
Não podemos voltar no tempo para oferecer à nossa criança tudo o que ela precisava. Mas podemos, hoje, aprender outras maneiras de nos relacionar, estabelecer limites, pedir ajuda, acolher sentimentos e escolher vínculos nos quais não precisemos desaparecer para pertencer.
O passado faz parte da nossa história, mas não precisa escrever sozinho os próximos capítulos.
A infância é o chão que pisamos a vida inteira. E, mesmo que algumas partes desse chão tenham sido difíceis, ainda podemos cuidar dele, abrir espaço para novas raízes e descobrir que crescer não precisa significar abandonar a pessoa que fomos.
Respira. Talvez exista, dentro de você, uma parte que passou muito tempo tentando ser forte e corresponder às expectativas de alguém. Talvez ela precise de acolhimento.
E, se hoje você pudesse dizer alguma coisa à criança que foi, o que gostaria que ela soubesse?
Coragem. Viver também é aprender, aos poucos, a caber em si.
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