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Marina Diva de Oliveira

Quando a vida para na nossa frente

Por Marina Diva · Colunista· 3 min de leitura
Quando a vida para na nossa frente

No trânsito, ontem, vi uma cena pequena. Dessas que provavelmente passariam despercebidas, não fosse a mania que tenho de achar que a vida está sempre dizendo alguma coisa.

Um caminhão subia uma rua íngreme.

Devagar. Muito devagar.

Na minha frente, um carro parou.

Ficou ali, esperando.

Mas havia um detalhe: a rua era de mão dupla. O caminhão ocupava seu espaço, fazendo o que precisava fazer para vencer a subida. O outro lado continuava livre.

Era possível seguir.

Mas o carro permaneceu parado, atrapalhando que os demais carros passassem pela via.

Fiquei pensando em quantas vezes fazemos exatamente isso.

A vida coloca um caminhão na nossa frente e nós entendemos que precisamos parar.

Esperamos que o caminhão passe. Que a subida termine. Que o trânsito ande. Que as coisas se organizem. Que alguém mude. Que a coragem apareça. Que o medo diminua.

E, enquanto esperamos, esquecemos de olhar para os lados.

Às vezes, não estamos sem saída.

Estamos apenas olhando fixamente para aquilo que está nos impedindo de passar. Paralisando!

Há uma diferença enorme entre não poder seguir e não conseguir imaginar outro caminho.

Essa pode ser uma das formas mais silenciosas de paralisia: quando transformamos um obstáculo circunstancial em uma sentença sobre a nossa vida.

“Agora não dá.”

“Não é o momento.”

“Depois eu vejo.”

“Quando isso resolver, eu começo.”

E, sem perceber, vamos estacionando dentro de nós.

Não estou falando daquele parar necessário. Há momentos em que a vida pede pausa. Há cansaços que precisam ser respeitados. Há lutos que não podem ser atravessados na velocidade que gostaríamos. Há situações em que realmente não existe passagem.

Mas existe também o momento em que precisamos perguntar:

Será que não há caminho ou será que eu parei de procurar?

Acredito muito que maturidade tenha um pouco disso: aprender a distinguir o que precisa ser enfrentado do que precisa ser contornado.

Nem todo caminhão precisa ser ultrapassado.

Alguns precisam apenas continuar subindo.

E nós precisamos encontrar o nosso lado da estrada.

Gosto de pensar que viver não é ter sempre passagem livre. Isso seria uma vida bastante irreal. Viver é desenvolver alguma intimidade com os desvios, com as esperas, com as subidas e, principalmente, com a capacidade de perceber quando ainda existe espaço para seguir.

Porque há dias em que a vida parece dizer: “Pare.”

E há outros em que ela pergunta: “Por que você ainda está parado?”

Hoje pode ser um bom dia para olhar para os lados.

Não para fugir do que está diante de nós.

Mas para descobrir se, apesar de tudo, ainda existe caminho.

E quase sempre existe.

Às vezes, ele só não está exatamente onde estávamos olhando.

A vida não pede que você seja corajoso o tempo todo. Ela pede apenas que, diante do que parece bloquear sua passagem, você levante os olhos e olhe para os lados.

Nem todo impedimento é uma parede. Alguns são apenas um caminhão subindo devagar uma ladeira. E, enquanto ele faz o caminho dele, ainda existe uma estrada inteira esperando pelo seu movimento.

Respira, é humano!


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