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Marina Diva de Oliveira

Que a gente reaprenda a caber em si

Por Marina Diva · Colunista· 5 min de leitura
Que a gente reaprenda a caber em si

Tenho escutado mulheres com muitas atividades, muitas responsabilidades e pouco tempo para si. Mulheres que acordam pensando no que precisa ser feito, atravessam o dia resolvendo problemas e, quando finalmente encontram alguma brecha, já estão cansadas demais para escutar a si mesmas ou para fazer algo para si. Mulheres que cuidam, organizam, acolhem, trabalham, sustentam rotinas e afetos. Mulheres que, tantas vezes, sabem exatamente do que as pessoas ao redor precisam, mas já não conseguem responder com tanta facilidade a uma pergunta simples: e você, ainda está aqui? Do que precisa?

Fico pensando no quanto aprendemos a funcionar antes de aprender a nos escutar. Há uma história por trás disso. Por gerações, fomos ensinadas a cuidar, servir, conciliar, dar conta. Aprendemos cedo a perceber o choro do outro, antecipar necessidades, manter a casa em ordem, sustentar relações e seguir em frente mesmo quando alguma coisa dentro de nós pedia pausa. Muitas mulheres cresceram ouvindo que eram fortes quando suportavam tudo, boas quando se colocavam à disposição e amorosas quando abriam mão de si. Aos poucos, o cuidado, que também pode ser expressão de amor e potência, tornou-se uma expectativa: a de que estaríamos sempre disponíveis.

Desaprender padrões é reconhecer que não nos falta força, mas que, por muito tempo, nos ensinaram a usá-la para cuidar de todos, menos de nós mesmas. É compreender que também podemos ser destinatárias do cuidado que oferecemos ao mundo, sem culpa, sem precisar merecê-lo pelo cansaço e sem esperar que a exaustão nos obrigue a parar.

O Outubro Rosa chega todos os anos para legitimar o espaço da mulher no calendário da saúde. Chega com seus laços, suas campanhas e seus lembretes sobre a prevenção do câncer de mama. E ainda bem que chega. Precisamos falar sobre exames, sinais de alerta, acesso aos serviços de saúde e diagnóstico oportuno. Precisamos lembrar que cuidar da saúde não deve depender de uma campanha, nem acontecer apenas quando alguma coisa dói.

Mas há uma pergunta que me acompanha para além do calendário: em que momento nós nos tornamos tão disponíveis para a vida dos outros e tão adiáveis para nós mesmas?

Conhecemos bem a agenda de quem amamos. Lembramos o horário do compromisso dos filhos, a consulta da mãe, o prazo do trabalho, o aniversário da amiga. E a nossa consulta? Aquele exame que ficou para o mês seguinte? O cansaço que já dura meses? A tristeza que disfarçamos com um “está tudo bem”?

Vamos deixando para depois. Depois que o trabalho acalmar. Depois que as crianças crescerem. Depois que a situação financeira melhorar. Depois que todos estiverem bem.

O problema é que a vida raramente fica inteiramente organizada para nos receber. Sempre haverá alguma urgência, uma louça na pia, uma mensagem sem resposta, alguém precisando de alguma coisa. E, enquanto esperamos o momento ideal para cuidar de nós, o tempo continua acontecendo.

Não escrevo isso para transformar o autocuidado em mais uma tarefa na lista de obrigações das mulheres. Já temos exigências demais! Tampouco para responsabilizar individualmente quem não consegue fazer um exame, descansar ou procurar ajuda. Há filas, jornadas exaustivas, desigualdades, falta de recursos e tantas condições concretas que tornam o cuidado difícil. Falar de saúde também é falar de acesso, de políticas públicas e de redes que sustentem a vida.

Mas há algo que podemos começar a perguntar, quando as condições permitem: o que em mim está pedindo atenção?

Quero te fazer um convite:

  1. Escolha uma palavra que diga da sua necessidade hoje: saúde, tempo, descanso, coragem, acolhimento, liberdade, paz, autocuidado, pausa, prioridade, florescer.

Fiquei pensando em quantas vezes nossas necessidades aparecem primeiro como palavras pequenas, quase sussurradas, enquanto seguimos respondendo às urgências do mundo. O primeiro movimento de cuidado é justamente esse: conseguir nomear o que nos falta, reconhecer o que precisamos e nos permitir fazer alguma coisa a respeito. Não se esqueça: antes de mudar a vida, precisamos encontrar uma palavra para aquilo que já não cabe nela.

  1. Depois de escolher essa palavra, peço que faça um pequeno deslocamento. Em vez de olhar apenas para essa necessidade, te convido a reconhecer a força necessária para mudar alguma coisa e transformá-la em pequenos gestos possíveis, escolhas mais conscientes e compromisso com a própria vida. Nomear o que já não cabe. Perceber o limite. Escolher uma ação possível.

Força não é somente aguentar. É, ainda, marcar a consulta que estamos adiando. Pedir ajuda. Dizer não. Dividir tarefas. Procurar escuta para aquilo que pesa por dentro. Admitir que não damos conta de tudo (ser suficientemente boas) e que isso não nos torna menos capazes, menos amorosas ou menos dignas.

A escritora Audre Lorde escreveu sobre o autocuidado como um gesto de autopreservação, especialmente em contextos de desigualdade e luta. Essa perspectiva nos ajuda a compreender que cuidar de si não é um luxo nem uma recompensa por termos cumprido todas as nossas obrigações. É parte do direito de permanecer vivas, inteiras e presentes na própria história.

Desaprender e reaprender a caber pode ser isso: voltar a reconhecer o próprio corpo não apenas como aquele que trabalha, carrega, produz e abraça, mas como casa. Uma casa que também precisa de atenção, descanso, alimento, prevenção e afeto.

Do meu Outubro Rosa para o seu: que a gente reaprenda a caber em si, sem culpa e sem precisar esperar que a vida nos interrompa para perceber que também merecemos atenção, presença e cuidado. Pense: o que em mim precisa ser visto? O que pode mudar? Qual é o próximo gesto de cuidado que está ao meu alcance?

Pode ser pequeno. Uma ligação para o serviço de saúde. Um exame agendado. Uma conversa honesta. Um pedido de ajuda. Uma pausa sem culpa. Ou a coragem de dizer, pela primeira vez em muito tempo: eu também preciso de cuidado.

Que a gente não espere o medo chegar para aprender a olhar para si. E que não seja necessário perder alguma coisa para reconhecer o valor daquilo que ainda podemos viver.

Você também faz parte da vida que merece cuidado.


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